Mostrando postagens com marcador Tratado de Roma. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Tratado de Roma. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 8 de julho de 2015

A Tragedia Grega

Cansei de falar e, sobretudo, criticar a situação político-econômica brasileira. Isto aqui está, a cada dia, mais conturbado. Tem “pedaladas” por todo lado e o brasileiro testemunhando os mais diversos dos descalabros políticos-institucionais, nunca antes visto na história deste país. Deixei de lado as futricas domésticas e voltei-me para o cenário internacional, onde a Grécia está ocupando o topo das pautas de trabalho. E não falo à toa, porque afinal esta confusão grega pode atravessar o Atlântico... e a turma de Brasília não sabe falar grego. Só falam, no máximo, castelhano.
Neste foco de hoje, recordo então meus tempos de Coordenador de Cooperação Internacional da Sudene e minhas participações em fóruns, realizados em alguns lugares no exterior, inclusive na Europa, quando se preparando para ingressar na Era do Euro. Havia muito entusiasmo, mas, certa inquietação também entre as economias do Bloco quanto ao futuro que se desenhava. Em países menores – socioeconomicamente falando – entre os quais Portugal, Espanha e Grécia, as interrogações eram muitas porque precisavam desenvolver tremendos esforços para se nivelar às grandes potencias da Região, particularmente a Alemanha e a França. Somente assim poderiam integrar a chamada Zona do Euro. O debate político foi intenso naquela época e muitas manifestações públicas rolaram de país a país. Lembro que na ultranacionalista França a briga foi grande. A Inglaterra consultou seu povo e disse NÃO ao Euro. Outros fizeram o mesmo. Hoje há países que fazem parte da União, mas não ao Euro.    
 A Grécia, bem como Portugal e Espanha, fizeram o possível e até o impossível para não ficarem de fora. Os estímulos das autoridades monetárias da União Europeia eram sedutores, os incentivos pró-adesão nem se fala. E, além disso, as referencias políticas que norteiam a reunião desses países, nascidas com o Tratado de Roma (25.7.1957) tendo como referencia maior a paz e união entre as nações do Velho Continente, todas cansadas de guerras. De Roma saiu a chamada Comunidade Econômica Europeia (CEE), depois secundado pelo Tratado de Maastricht (07.02.1992) que sacramentou a União Europeia e criou a moeda comum, o Euro, introduzida no mercado a partir de 1º de janeiro de 1999.
Só que, a adoção de uma unidade monetária única num universo tão dispare, como o europeu, nunca foi vista como sendo coisa simples. Longe disso. Na prática foi e vem sendo ainda uma das mais complexas experiências político-econômica que se tem noticia. O nivelamento monetário dos países da chamada Zona do Euro se transformou num pesadelo para os países menores.
A Grécia, como já mencionei, foi um daqueles que se revelavam pouco habilitados a aguentar o tranco imposto pelo Banco Central Europeu e a União Europeia. Junto com ela, lembro também, que estavam listados Portugal e Espanha e, de algum modo, a Itália. Outros apareceram depois, mas estes eram os casos mais prováveis.
O tempo passou e o esquema começou a apresentar falhas, ali e acolá, dando dor de cabeça às autoridades do Bloco. Portugal, Espanha, Irlanda e Chipre enfrentaram problemas e sofreram intervenções. E, a partir de 2010, a Grécia entrou no carrossel, quando flagrada, pelo Banco Central Europeu - BCE, maquiando (deram “pedaladas” por lá, também!) os números da sua economia.
Nesses casos o país “desobediente” torna-se refém das “mãos de ferro” de uma junta formada por três autoridades: BCE, FMI e UE. Esta junta é popularmente conhecida, no mundo europeu, por Troika (*).  A missão da Troika é justamente resgatar a economia do país em dificuldades. Uma junta desse tipo foi acionada para a Grécia, entre 2009-10. Um rigoroso plano de resgate econômico do país foi celebrado entre as partes interessadas, abrindo com isto as possibilidades de manutenção dos gregos, tanto na UE, quanto na Eurozone.  Não celebrar esse acordo evidenciaria um indicativo de fracasso da União e, sobretudo, da moeda única. No bojo do acordo celebrado, um bilionário empréstimo, em Euros (€ 240,0 Bilhões) foi concedido à Grécia, pelo FMI e BCE, com prazos de liquidação bem definidos e destinado a recuperar a economia e equilibrar as contas nacionais, nos padrões exigidos pela União. Reestruturação do Estado, contas nacionais equilibradas, redução de salários, controles de preços, revisão da política de aposentadorias, entre outras medidas, tiveram que ser adotadas de forma rigorosa e altamente monitorada.
O “remédio” ministrado, contudo, não deu certo e não viabilizou a recuperação da economia grega, que terminou entrando em colapso nestes primeiros meses de 2015. Os pagamentos das dividas se tornaram impossíveis e o país deu o calote. Foi o primeiro país desenvolvido a dar um calote no Sistema Financeiro Internacional.  
Também pudera! O país tem ¼ da sua população economicamente ativa desempregada, PIB em declínio e desespero geral. Tudo por lá está em franco declínio e se desvalorizando a toda hora. Bancos fechados, povo sem dinheiro, negócios sendo encerrados e daí prá pior. As dívidas internacionais, se pagas em dia, se arrastarão até 2054.
Num plebiscito convocado pelo atual Governo, realizado domingo passado, o povo (61%) disse OXI (NÃO em grego) ao aperto imposto pela Troika. Criou-se um brutal impasse.
De todo modo, o país continua querendo negociar e a Troika está dura na queda. A Premier alemã, Angela Merkel, está furiosa, querendo punir a Grécia, mas, de olho na manutenção da União. Os gregos pouco se incomodam. Sair da União, esquecer o Euro e voltar à antiga moeda é uma alternativa toda hora lembrada. E, vou dizer, se isto ocorrer, o risco de contaminar outros países é bem grande. Fiquem de olho, porque a toda hora temos novidades.

(*) Troika é uma palavra de origem russa que designa um comitê de três membros. A origem do termo vem da denominação dada a um veiculo puxado por três cavalos, postos lado a lado. Muitas vezes um trenó, puxado pelo trio de cavalos.

Nota: Fotos obtidas no Google Imagens


A História se Repete

Há histórias que atravessam os séculos sem perder a capacidade de nos fazer pensar. Ali Babá e os Quarenta Ladrões é uma delas. Lembro-me co...