sábado, 27 de novembro de 2021

Água Gelada na Fervura

O mundo tentando esquentar a retomada da vida e uma nova onda do vírus ameaça o processo. Ômicron é a novidade da semana. Uma nova variante identificada na África do Sul e com suspeitas de casos pelos demais continentes. É o que chamo de “agua gelada na fervura”. Um amigo prefere dizer que “botaram água na cerveja do carnaval”. Além de ser uma descoberta inesperada e desagradável é, também, mais um sinal de que nem tão cedo vamos nos livrar dessa peste. A coisa parece tomar força na Europa, em plena estação do frio e das nevascas, onde países que aparentemente tinha a coisa controlada, com bons percentuais de vacinas aplicadas, já se mobilizam para retomar as medidas de precauções. Alemanha (passando pelo pior momento da pandemia), Holanda, Itália, Áustria e França são países onde a 4ª onda já se faz presente. Noticias atualizadas (27.11.21) pela Agencia Reuters, Italia, Alemanha e Reino Unido já registram casos com a nova variante. Em Milão, um passageiro procedente de Moçambique testou positivo para esta nova variante. Mau sinal. O virus vai se espalhar rapido.
No último dia da semana, os pregões das bolsas de valores, do mundo inteiro, reagiram de modo negativo e os negócios caíram vertiginosamente em quase todas as praças, sob o pavor dos efeitos danosos na economia. No Brasil o índice Bovespa caiu 3,39%, fechando a semana no prejuízo. Numa sintomática decisão do Governo Brasileiro, coisa que surpreende devido ao histórico recente, as fronteiras do País estarão fechadas a seis países do sul da África (África do Sul, Botsuana, Eswatini, Lesoto, Namíbia e Zimbabue), onde o ômicron já é detectado. Ao mesmo tempo, o mais surpreende, aqui no Brasil, são as providencias contrárias como se tudo fosse passado e a pandemia seja uma página virada. Não se fala noutra coisa – a exceção das costumeiras trapalhadas políticas – a não ser dos preparativos para as festas de réveillon e carnaval. O Rio de Janeiro prepara um grande desfile de escolas e os ingressos para as arquibancadas se esgotaram no primeiro dia de vendas. São Paulo, também. Ora, se não houvesse ocorrido o carnaval de 2020 a nossa história seria outra. Mas, não. Há organizações como a do “O Galo da Madrugada”, maior bloco de rua do mundo (!), aqui do Recife, já escolheu tema (Viva a Vida, Viva o Frevo), monta suas alegorias e marca ensaios. Entidades de classe médica e científicas, locais e nacionais, já se manifestam oficialmente contrárias, alertando para os altos riscos de uma recidiva da pandemia. Conforme as noticias veiculadas pelos meios de comunicação, a vacinação tem sido um sucesso no país. A população tem sido receptiva, ao contrário de muitos países lá fora. Contudo, os especialistas sugerem a manutenção dos cuidados, uso de máscaras e assepsia das mãos com álcool. E avisam: é cedo para abrir de vez. Assustador é também saber da hipótese de que as vacinas hoje administradas venham a ser ineficazes para o tal do ômicron. Mesmo dando o desconto do sensacionalismo da imprensa é de se ficar atento com os próximos dias. Afinal, não esqueçamos de que o vírus original continua sendo pouco conhecido, as vacinas são ainda emergenciais e... Bom, que o futuro ainda é incerto. Diante deste quadro e desta modesta plataforma, cabe um apelo para que as autoridades “reinantes” usem do bom senso e decidam pelo melhor e, sobretudo, pensando na população. Pelo menos desta vez. NOTA: Charge de NANDO MOTA obtido no Google.

sexta-feira, 19 de novembro de 2021

Talentos Encantados

Nestes tempos sombrios da pandemia, a tristeza parece ainda mais triste do que sempre foi. Além do recolhimento forçado venho contabilizando perdas dolorosas de pessoas queridíssimas, inclusive uma irmã, resultando num vazio d´alma difícil de preencher. Dizem ser sentimento de quem muito vive. Mas que é um coisinha difícil de ser vivida, isto é indiscutível. Certa feita, conversando com a grande Dama do teatro pernambucano – Geninha da Rosa Borges – ao completar seus 90 anos, ouvi dela uma assertiva que guardo e, foi não foi, recordo. Segundo ela, “envelhecer pode ser mesmo uma dádiva divina... Contudo, é duro ver partir para a eternidade muita gente querida... dói muito.” De fato, ainda que um pouco distante dos 90, começo a sentir o peso dessa verdade. Gente iluminada, cabeças brilhantes, talentos singulares se encantam deixando-me (deixando-nos) para trás. Muitos partem sem tempo dar um “até logo”. Dias recentes perdi amigos talentosos e verdadeiros ícones da cultura local. Primeiro, em setembro, foi a partida do exímio violonista e compositor Henrique Annes; logo depois, no mês de outubro, foi a vez do grande Maestro Rafael Garcia e, na ultima semana de outubro, o compositor e meu grande amigo do peito, Severino Luís de Araújo, a quem dedico o espaço do Blog neste fim-de-semana. O clima é de luto no cenário musical pernambucano. Foram três perdas lamentáveis. É numa hora dessas que me ponho a questionar o velho ditado do “ninguém é insubstituível”. Conheci Araújo nos idos dos anos 70, quando casando com a minha dileta colega sudeniana, Adelina Freitas de Araújo. Vivíamos os áureos tempos dos combates à pobreza nordestina. Ele no Condepe, depois na Codevasf e nós (eu e Adelina) na velha SUDENE, a verdadeira. Éramos, na realidade, três jovens economistas envolvidos pela missão de desenvolver o Nordeste.
De origem humilde, na Paraíba, Araújo veio, ainda menino, com os pais e irmãos, para ganhar a vida em Pernambuco. Deu certo para a família e para o menino da Vila de Araçá (atual município de Mari) se tornando homem de destaque na Terra de Nabuco. Inquieto, experiente profissional e bem relacionado, Severino Araújo ganhou o mundo e terminou atuando com louvor em inúmeras frentes profissionais nos poderes executivo e legislativo nacional. Mas o profissional atuante trazia na veia outra rara habilidade voltada ao domínio poético-musical, sobre a qual prefiro destacar. Não mais importante do que as demais habilidades, mas, seguramente, a que mais estreitou nossa amizade. Acompanhei a vitoriosa vida desse compositor, desde sua estreia triunfante com o frevo-canção “Morena Azeite” (1984), a grande campeã do IV Frevança (Festival de Frevo e Maracatu), promovido pela Rede Globo de Televisão. Foi a primeira grande vitória na condição de autor de um frevo. Depois dessa vitória, sustentada pela voz do saudoso cantor pernambucano Expedito Baracho, outras inúmeras se seguiram em Pernambuco e na Paraíba. Não tardou muito e o nome do nosso amigo se notabilizou Brasil afora. Muitos famosos disputaram interpretar suas composições, entre os quais: Claudionor Germano (rei do Frevo), Ivanildo Silva, este interpretando “Sem Você Eu me Dano”, composição campeã, no V Frevança, Guadalupe, Valéria Moraes, Cristina Amaral. Por sorte, Araújo contou com arranjadores de mãos-cheias como José Menezes, Ademir Araújo e Duda. Enfim, foi uma sequencia elástica de sucessos musicais entremeados de contos e belos sonetos, revelando, sempre, um ser de extrema sensibilidade e muito humanismo. Mas, como sendo pouco, Severino Araújo enveredou, com igual sucesso e nas últimas estações da vida, pela popular arte da Cantiga de Cordel. Como sempre dedicou tempo e talento compondo verdadeiros poemas depois publicados no livro “A Vida não É Cor-de-Rosa” (2019), onde, por felicidade, deixou sua autobiografia para os que gozaram da sua convivência alegre e gentil. A propósito, sendo hoje, 19 de Novembro, o dia do cantador/cordelista, conforme lembra o Imortal José Paulo Cavalcanti (Jornal do Comercio, 19/11/210), torna-se oportuno homenagear Severino Luís de Araújo, um talento encantado no último 27 de outubro, com um belo cordel da sua autoria: Muita tolerância e fé/ Pratiquei na minha vida/ Bati em todas as portas/ Fui em frente na corrida/ Tenho orgulho do que fiz/ Sonhando em ser feliz/ Todos me deram guarida. NOTA: Foto obtida no Facebook

terça-feira, 9 de novembro de 2021

Economia Criativa

Ando colocando a cara no mundo tentando, com todos os cuidados, voltar ao normal. É curiosos como essa coisa de ficar “dendecasa” vicia. A internet facilita demais as coisas da vida e o cidadão chega a perder o “desembaraço” costumeiro de cair na rua, ir ao supermercado, ao shopping e outros lugares comuns. Preguiça ou a idade? Tenho achado que o transito está pior. Parece que todo mundo resolveu sair de vez. Até a cidade parece outra. Fico na dúvida: sou eu somente ou todo mundo sente essa estranheza? Bom, deixa pra lá... o assunto de hoje é outro. Como ia falando, tenho colocado a cara no mundo e, neste fim de semana passado, circulei em restaurantes e bares da vida. Mais do que isso, a convite do meu filho e minha nora, fizemos, com minha esposa, uma escapada pela zona da mata de Pernambuco indo à cidadezinha de Tracunhaém (formigueiro em tupi-guarani) localizada a 80km do Recife, com a intenção de ver de perto a produção de cerâmica utilitária e figurativa da cidade. O local é berço de muitos ceramistas famosos, com famas nacional e internacional. Até ja foi cenário de novela da Rede Globo de televisão (Coração Alado, com Tarcísio Meira no papel principal).
Uma boa rodovia federal (BR-403) nos leva praticamente até lá. Paisagens exuberantes da Mata Atlantica e dos canaviais pernambucanos para encher a vista de quem passa. A cidade é bem pequena, com menos de 15 mil habitantes e o IDH gira em torno de 0,650. É, certamente, uma taxa mediana. Acredito que a proximidade da Região Metropolitana do Recife facilita a vida daquela gente que pode não ser tão difícil. Apesar disso, circulando pelas suas ruas estreitas, altos e baixos, poucas praças, os sinais regionais de pobreza chegam a ser visíveis. Mesmo assim é de se enaltecer as inteligências e habilidades artístico-culturais de um povo que soube capitalizar as chances de desenvolver o que se chama, modernamente, de economia criativa, com base na arte da cerâmica de terracota (barro cru ou queimado) que terminou projetando a cidade no resto do Brasil e no Mundo.
Mestres da mão-no-barro se tornaram famosos e fizeram história deixando um legado que vem sendo preservado com orgulho e muita criatividade por uma gente hospitaleira. Entre esses se destacam: Zezinho, Nuca, Dona Nóca, Mestre Zuza, Maria de Nuca, entre vários outros. É formidável admirar de perto as formas cerâmicas que são boladas pelas calejadas dos artesãos locais e perceber a pegada de uma gente que se dedica, de corpo e alma, numa forma lúdica de viver e economicamente efetiva para seu digno sustento
Um traço marcante na arte cerâmica de Tracunhaém ficou “imortalizado” pelas mãos de Nuca (falecido em 2015) e seus discípulos (foto logo acima), que é o Leão Cacheado. Virou clichê de todos os documentários e afiches que se referem ao sitio cultural da cidade e, inclusive, do estado de Pernambuco. Seus trabalhos já foram expostos no exterior e seus leões cacheados estão pontificando em praças públicas, como no Primeiro Jardim, da praia de Boa Viagem, no Recife, e no Jardim do Sitio de Burle Max, no Rio de janeiro. Foi uma bela escapada, no fim de semana, e uma boa oportunidade de observar de perto um exemplo de economia criativa. Sugiro que visite Tracunhaém para ver um Pernambuco raiz. NOTA: As fotos ilustrativas são da autoria do Blogueiro.

domingo, 31 de outubro de 2021

Uma vaca magra no telhado

O Outubro que hoje termina, propalado como o mês rosa em alerta ao câncer de mama pode ter sido um sucesso como campanha, mas, não foi nada cor de rosa para o domínio político-econômico nacional. Ao contrário, foi permeado de agitações muito pouco benéficas para a família brasileira. O fim da CPI da Covid, no Senado, depois de muitas idas e vindas, deu, na minha humilde opinião, um tom de incerteza quanto aos avanços do Estado brasileiro e instalou uma bolha de expectativas que promete rolar, por tempo igualmente longo, nos palanques eleitorais que serão montados a partir dos primeiros meses de 2022. Aliás, para quem considera que existem palanques de 2018 ainda de pé, verá sê-los remontados com mesmos coloridos. Haja emoções. Outro quiproquó politico de outubro gira em torno da discussão da PEC dos Precatórios que rola no Congresso Nacional. É um nó que eu chamo de “nó federal”. Uma série de despesas-filhotes será gerada com a aprovação da dita cuja. Além de postergar ou parcelar pagamentos dos precatórios (dívidas do Governo, por decisão judicial, a pessoas físicas e jurídicas), a fabulosa soma – da ordem de Bilhões de Reais – será destinada a cobertura do pagamentos do Auxilio Brasil de R$ 400,00 (substituto do Bolsa Família), emendas parlamentares (verbas que deputados abocanham para aplicar nos seus redutos eleitorais), sustentar o Fundo Eleitoral (estão querendo R$ 5,0 Bilhões) para financiar a campanha eleitoral de 2022, entre outras perfumarias. Triste do cidadão ou pessoa jurídica que esteja contando em receber um precatório. Muitos negócios podem estar ameaçados de ir “ladeira abaixo”. E nunca são poucos. Já se fala que o dinheiro não vai dar para cobrir essas “singelas” despesas.
Pior de tudo é que, como a grana já é curta, uma vaca pode, facilmente, “subir no telhado” e furar o Teto de Gastos. Pense numa bronca. É a situação mais indesejada possivel. Este dispositivo, criado pela Emenda Constitucional 95 (2018) instituiu um Novo Regime Fiscal que limitou os gastos do Governo ao mesmo valor de cada exercício anterior, corrigido apenas pelo índice oficial de inflação. Foi um sucesso de imediato por garantir ampla credibilidade ao Governo, nos mercados doméstico e internacional. Contudo, valendo-se da prerrogativa prevista, na mesma Emenda, de propor uma Lei Complementar permitindo furar o Teto, o Governo Bolsonaro (Paulo Guedes de corpo e alma) luta agora para aprovar essa possibilidade. Pura panaceia, que pode virar um desastre. Desmoraliza a ideia do controle de gastos, provoca uma alta da inflação que já vem assanhada, o Banco central vai ser obrigado a aumentar, ainda mais, a taxa de juros, a dívida do Governo vai inflar e a vaca vai ficar fazendo finca-pé. Isto sem falar nos exógenos e inoportunos fatores, como dólar apreciado e produtos básicos importados a preços altíssimos. E o povão a chorar. Agitando esse tubo de remédios paliativos, tudo leva a crer que teremos um ano de 2022 de muita dureza. Para não dizer que a coisa foi preta de tudo, acabo de ver que neste Outubro foi o mês de menor numero de mortes devido a Covid, desde abril de 2020. Eis, então, um dado cor de rosa! Curioso, aliás, é observar que a turma está confiante e se esbaldando com esse resultado e com o avanço da vacinação. Porém, abramos os olhos. A coisa ainda não acabou. Afrouxar as medidas de precauções de modo tão abrupto pode ser perigoso. Abolir máscaras, encher estádios de futebol, liberar lotações completas dos bares, restaurantes e grandes shows, entre outras atividades ainda causam temores. Calma minha gente, o bicho continua solto por aí. Por fim, no apagar das luzes do mês, duas noticias internacionais e que mexem com o Brasil são destaques: a Cúpula do Clima, aberta, neste dia 31, em Glasgow, e o fiasco, segundo noticiam, da reunião do G20, em Roma. Embora alimentando esperanças quanto aos debates, na Escócia, sou cético e meio desencantado com esses convescotes de lideres mundiais. Vejo muita alegoria e pouca evolução. Prefiro ficar de olho na vaca em cima do telhado. NOTA: Foto obtida no Google Imagens. Foto de vaca que subiu num telhado de casa na Suiça. Subiu e desceu sozinha.

sexta-feira, 15 de outubro de 2021

Adiós Garcia

O mundo cultural de Pernambuco, em particular o mundo da música erudita, fecha esta semana com um desfalque de um exímio talento, dado ao encantamento do maestro Rafael Garcia. Uma lacuna que temo ser difícil de preencher. O virtuoso maestro perdeu a dura batalha para um câncer devastador, aos 77 anos, no último dia 12, provocando lágrimas que se derramam pelas encostas dos Andes chilenos e desaguam no vale do Capibaribe. Olhando por um “retrovisor” lembro vivamente de episodio marcante na minha carreira de executivo: parece que foi ontem, embora decorresse o ano de 1997, quando recebi no meu gabinete de trabalho, na antiga SUDENE, uma Senhora entusiasmada falando-me dum projeto de expressiva envergadura para difundir, entre nós nordestinos, a cultura e difusão da música clássica. Buscava apoio financeiro. Naquela época exercíamos o cargo de Coordenador de Cooperação Internacional do organismo regional. “Como o Senhor é responsável pela gestão das relações internacionais desta Entidade, acredito que bati na porta certa”. Foi o que ouvimos, como cartão de visita, da renomada pianista pernambucana Ana Lucia Altino Garcia. Surpreso com aquela rara demanda, fiz ver que os sinuosos caminhos da burocracia governamental não permitiriam um atendimento de imediato como desejado. Contudo, sem perder tempo, fiz questão de ouvir o que ela tinha para justificar seu pedido. Foi ali que ouvi falar, pela primeira vez, no nome de Rafael Garcia. Era curioso como ela se entusiasmava ao sublinhar que se tratava do seu marido, um talentoso músico e grande maestro, e que, juntos, resolveram montar um programa para revolucionar o meio musical do Recife. Para me sensibilizar frisava sempre que se tratava de um projeto de caráter internacional. Eles já vinham de belas experiências internacionais e até declinavam convites tentadores fora das nossas fronteiras. Coisa inusitada por estas bandas e, sobretudo, naquele tempo. Sem que houvesse uma rubrica orçamentária para atender ao pedido, resolvi, em caráter pessoal, “vestir a camisa” daquela iniciativa e tratei de identificar formas de apoio. Lembro que sugeri a busca de ajudas nas iniciativas privadas e, inclusive, indiquei empresas que poderiam fazer aportes substanciais. Deu certo! Aposentado da Agencia Regional e passando a atuar em meio à iniciativa privada vi-me mais envolvido com aquela ideia pela qual me tornei um constante admirador.
Se o entusiasmo e a garra de Ana Lucia contagiam qualquer interlocutor, não menos ocorria quando me via diante de Rafael António Garcia Saavedra. Chileno de nascença, pernambucano de coração e cidadão de direito desta terra de Nabuco, por decisão da Assembleia Legislativa local. Era encantador ver aquele homem falar de musicas e de projetos. Critico e até ácido nas suas buscas de incentivo, Rafael sabia dosar e "falar grosso" para quem devia. Assustava muitas vezes, mas, agradava o grande público fromador da consciência coletiva. Sensacional. Cumpriu um papel de fundamental importância sociocultural. Bravo Maestro! Jamais esqueceremos. O projeto do Casal Garcia tomou vulto, envolveu a família – todos amantes da boa musica e discípulos daquela formidável dupla – por inteiro e bridou o Brasil com brilhantes eventos musicais que marcam épocas nas sociedades pernambucana e brasileira. O que era uma ideia cresceu e deu origem à Virtuosi Sociedade Artística que se encarrega de promover, desde o final dos anos 90, inicialmente no Recife e depois no Rio de Janeiro, São Paulo e outras cidades regionais inesquwcíveis festivais de musica erudita para deleite dos amantes da boa musica e como educativo para uma geração ligada aos ritmos mais modernosos. Abriram-se palcos e explodiram muitos aplausos para gaudio da sociedade.Concertos que se repetiram com iguais sucessos nas praças de Santiago, Buenos Aires e Montevideo. Tudo sob a batuta de Rafael Garcia. Faço parte da legião de admiradores desse gênio chilenbucano da musica que partiu para eternidade deixando um legado de inestimável valor cultural. Muito teríamos para ilustrar este exíguo espaço, mas, fica a sugestão para que os/as leitores/as visitem o site da Virtuosi Sociedade Artística (www.virtuosi.com.br) onde se encantarão com a obra desse estimado amigo que nos deixou. Adiós Garcia! Espero no futuro assisti-lo regendo grande sinfônica sobre belas nuvens. E, desse modo, melhor dizer Hasta Luego! Acredito e alimento a certeza de que a família Altino Garcia, à frente Ana Lucia Altino, fará jus a essa diferenciada herança e sustentará a Virtuosi para deleite das novas gerações e para difusão da musica erudita. NOTA: Foto dos arquivos da Sociedade Virtuosi.

quinta-feira, 7 de outubro de 2021

Deletando o patrimônio cultural

Sempre fui, desde muito jovem e por questão de cultura familiar, muito ligado às artes plásticas e a Historia da Arte. Assim, como um hábito de raiz, tudo que diz respeito a esse domínio da inteligência humana chama e prende minha atenção. Tenho inclusive uma humilde coleção de obras de arte que me enche de prazer e toma meu tempo de lazer. Sempre que possível visito museus, galerias e ateliês de pintores e escultores. É, portanto, meu hobby. Nas varias chances que tive de expor-me a outras culturas, uma das primeiras coisas que procuro ver são as manifestações através das artes plásticas, das mais rudimentares às mais acadêmicas. Gostei de conhecer de perto obras de pintores e escultores famosos e de mestres desconhecidos, embora que de uma escola “certificada”, como as lavradas pelos pintores cuzqueños, do Perú, pelos quais tenho especial admiração. Registro inclusive o zelo que observo na grande maioria das vezes como os povos prezam seus patrimônios artísticos. Como já abordei noutras postagens deste Blog, acompanho com grande desaponto a maneira como boa parte do patrimônio histórico brasileiro – com destaque para as artes plásticas e arquitetônicas – vem sendo relegada a ultimo plano, pelas autoridades (in)competentes, ao ponto de deletar (usando um termo moderninho) obras seletas do nosso mundo artístico-cultural. Aqui em Pernambuco já perdemos verdadeiras joias de arte, nos diferentes planos de manifestações. O centro antigo do Recife, na sanha galopante da modernidade, perdeu suas características originais para dar lugar aos mostrengos modernosos, a partir da primeira metade do século passado. Mas, a coisa não parou por ali. Neste momento assisto, com pesar, discussões a respeito do estado de degradação e possíveis destinos de famosas obras de dois ícones da modernidade – vejam só – das artes plásticas pernambucanas: Lula Cardoso Aires (1910-1987) e Francisco Brennand (1927-2019).
O primeiro, notável pintor do século passado, deixou uma infinidade de obras em prédios públicos, assim como em coleções particulares. Neste momento, cobra-se da empresa espanhola que administra o Aeroporto Internacional do Recife, o resgate e reaposição de destaque, no novo edifício, de belas obras de Cardozo Aires, abandonadas ao relento e intemperes, no prédio descoberto da antiga estação de passageiros e constante no programa, segundo rumores, de demolição para dar lugar à ampliação do estacionamento. Imagine que a velha estação teve o telhado roubado por vândalos. Pelo amor de Deus! Onde estão as autoridades da Fundação do Patrimônio Histórico e Artístico de Pernambuco (FUNDARPE) que já tombou, no passado, as referidas obras? Trata-se de magnificos paineis retratando duas manifestações culturais pernambucanas: o folclore, com destaque para o maracatu, e os ciclos econômicos brasileiros.Vide foto acima.
Já sobre o segundo artista, destaca-se o famoso mural que reproduz cenas da Batalha dos Guararapes, datado da passada década de 60, posto na lateral do Edifício Banlavoura, e por encomenda do antigo Banco da Lavoura de Minas Gerais, na esquina da Rua das Flores e Avenida Dantas Barreto no centro do Recife. Recordo que, por algum tempo, trabalhei nesse prédio e diariamente admirava a beleza daquele imenso painel cerâmico. Com a crescente degradação da região central da cidade (infeliz fenômeno comum no Brasil de hoje) a obra de Brennand foi sendo atacada por vândalos, virou mictório publico dos moradores de rua, peças foram subtraídas e agora, por pressão dos amantes da cidade e da sua cultura, a FUNDARPE com o sucessor daquele Banco discute o destino de reposição da fantástica obra. Fala-se que o Banco promete recompor e reposicionar o painel numa das suas principais agencias do Recife, provavelmente no bairro de Boa Viagem. E o centro “histórico” recifense que fique, cada vez, mais pobre. Vide foto do painel, logo acima. Desolado, junto-me, desde esta humilde plataforma, aos que lutam pela preservação da arte dos valorosos artistas que souberam legar um rico patrimônio à posteridade. NOTA: As fotos ilustrações foram obtidas no Google Imagens.

sábado, 25 de setembro de 2021

E o novo normal?

Há dezoito meses, quando a pandemia da Covid-19 tomou conta do mundo e a mídia se encarregou de espalhar o medo e um “fim-de-mundo” assustador, o que se viu foi a instalação de um modo de vida nunca antes vivenciado. Trancamo-nos em casa, seguimos todos os conselhos das autoridades de saúde do planeta e, neste ambiente, todo mundo pôs-se a discutir o futuro. O termo mais comum foi resumido no que se passou a chamar de “novo normal”. Para os crentes, aquilo tudo era um sinal de Deus para que a humanidade revisse seus comportamentos pouco recomendáveis e que a vida teria que ser redesenhada com mais temor às coisas divinas. Já para cientistas, o planeta estava cobrando moderação no tratamento e generosidade com a natureza. Ao mesmo tempo, os dedicados às ciências sociais, incluindo historiadores, o mundo havia chegado ao limite das disparidades socioeconômicas que revelavam de modo severo as grandes diferenças entre povos, culturas e nações. Grandes países, como China, Brasil e Estados Unidos – onde a pandemia castigou de modo expressivo – tiveram tudo isso muito visível e, por vezes, estarrecedor. Ocorre que o imaginário (inteligência?) humano é sempre fértil e capaz de desenhar projetos dos mais simples aos mais absurdos. Dessas incontáveis elucubrações, surgiram ideais das mais diversas. Ouvi de muita gente coisas do tipo: “nunca mais vamos viver em grandes agrupamentos”, “shows e jogos em estádios vão se acabar”, “nem em família vamos poder confraternizar como antes”, “esse vírus nunca mais vai desaparecer”, “viajar e se expor às culturas estrangeiras será coisa do passado”, “vamos ter que usar máscara o resto da vida!” e por aí foram surgindo muitas outras opiniões.
A verdade que se esboça, contudo, é que o tal do novo normal já começa a dar sinais de que a humanidade ou, pelo menos, as sociedades mais destacadas já começam a recuperar os seus hábitos de vida, embora que adotando os cuidados ainda necessários porque a pandemia ainda não passou. As vacinas contra a Covid vêm dando respostas positivas e a esperança de tempos tranquilos se mostra, cada vez mais, provável. Sendo assim, viva a Inteligência humana e o progresso da Ciência. Mas, cabe uma observação e, suponho, que indiscutível: a Pandemia deu chances a que a modernidade digital – que já vinha se instalando aos poucos – acelerasse sua presença no mundo social, politico e dos negócios, provocando uma revolução nas relações humanas não imaginadas, antes de 2020. Por conta disso, sou daqueles que consideram que o século 21 começou agora. É impressionante como, nesses dezoito meses passados, soluções fantásticas foram descobertas na onda ilimitada do ciberespaço. Home-Office, comércio on-line, comemorações das mais diversas pelas populares redes sociais, surgimento de especialistas em realizar negócios na rede digital (digital-influenciador), EAD (Ensino à Distancia), shows ao vivo pelas redes, congressos e seminários, reuniões de cúpulas governamentais e, enfim, uma enormidade de outras soluções que somente a Internet é capaz de proporcionar. São soluções que podem parecer provisórias, até porque a forma presencial não cairá de uso tão cedo, mas as novas descobertas serão usadas por muitos. Acredito que o mundo viverá um modo hibrido de comunicação social por muito tempo. Na esteira dessas descobertas muitas outras coisas desenharam ou consolidaram um novo normal de vida. Refiro-me às possibilidades que se abriram a pessoas que resolveram adotar, em definitivo, soluções como as acima enumeradas e procuraram viver afastadas dos grandes e conturbados centros urbanos, megalópoles sobretudo, inseguros, poluídos e de trânsitos trepidantes. Seria isso tudo um novo normal?
Cabe registrar, para terminar este post, que o combate à Pandemia está sendo incapaz de, simultaneamente, reduzir as disparidades socioeconômicas do planeta. Trata-se de um longo processo a ser perpetrado. Ainda será um grande desafio pela frente e, o pior, motivo gerador de novas pandemias, tão graves e tão indesejadas para a humanidade. Lembrando os conselhos de Yuval Noah Harari, vamos ter que praticar uma politica intensa de solidariedade mundial para que as futuras gerações estejam livres dessas duras calamidades. NOTA: As fotos ilustrativas foram colhidas no Google Imagens.

Supremo Desalento

Acordei cedo neste 15 de setembro de 2026, alimentado uma das maiores esperanças dos últimos tempos para meu Brasil: a sessão extraordinári...