sábado, 30 de abril de 2011

Guilherme e Catarina

Na semana passada meu papo foi sobre holandeses. Hoje mudei para ingleses, que tiveram, também, boas oportunidades nos costados do Brasil. Aliás, no mundo inteiro. Eles eram competentes para manobrar economicamente nações frágeis e estruturas desorganizadas. Quem não se lembra do famoso clichê: “ no Império Britânico, o sol nunca se põe”. Dominavam meio mundo. Sabidos de tudo!
Aqui no Recife, eles eram os donos das companhias de geração e distribuição de energia, telégrafo, serviços bancários, transportes urbano (vide foto, abaixo, do bonde da linha de Tejipió) e interurbano, entre outras atividades. O Brasil não tinha poder de investir, nem tecnologia. Fazer o que? Como, por sorte, as concessões de exploração tinham tempo de duração, a era inglesa foi-se, aos poucos, tendo fim. E isto aconteceu somente nos meados do século 20.
Por justiça, devo dizer que explorando ou não, eles terminaram por contribuir com a estruturação de muitas cidades brasileiras, entre as quais o Recife. E contribuíram socialmente ao introduzirem hábitos e costumes mais refinados, somente existente na Europa. Fundaram associações sustentáveis, como é o caso do The British Country Club, que esta semana completou 91 anos de existência.
Assim eram os ingleses dos séculos 18,19 e 20. Senhores do Mundo. Os Estados Unidos, a Austrália e a Índia, antes de serem essas potências econômicas do mundo moderno, foram colonizadas pela coroa britânica.
Tudo isto, para situar meus comentários de hoje, que se referem ao “conto de fadas” que, ontem, a moderna tecnologia da comunicação jogou aos quatro cantos do mundo: o casamento do Príncipe Guilherme (William) com a plebéia Catarina (Kate). Quanta pompa...
Acordo diariamente a tempo de assistir ao noticiário da manhã. Ontem não tive saída. Tudo era o casamento real, em Londres. Não que eu me opusesse a assistir. Não. Eu costumo assistir tudo que se noticia. Das mais bizarras às mais singelas, passando pelas guerras, tornados, terremotos e maremotos. Foi muito bonito. Um casal bonito. Ela é linda. Pensando bem, a transmissão de ontem valeu como uma pausa entre as noticias catastróficas rotineiras e serviu de lenitivo para os telespectadores do mundo inteiro.


Impressionante como esses ingleses conseguem preservar tanta pompa e solenidade. O mundo muda rapidamente, regras anacrônicas são quebradas e eles se seguram cultivando hábitos e costumes seculares, com pouquíssima atualização, em função de uma instituição decorativa, como é a realeza britânica.
Sem o poderio político-econômico do passado, a Inglaterra parece se valer dessas oportunidades para avisar ao mundo que está viva. Mesmo amargando dificuldades por conta da atual crise econômica, o Império não abdica do orgulho e da majestade. Isso, sem falar no que rende ao país, uma festa desse porte.
Um tom de modernidade foi admitir o casamento do herdeiro da coroa com uma plebéia, com quem ele já vivia há oito anos. Fico pensando no que passa pela cabeça dessa jovem. É uma bichinha de sorte, indiscutivelmente. Sai do plebeu anonimato e se torna futura Rainha da Inglaterra. Mais do que isto, mãe do futuro Rei. Não é mole. Se esse reino tiver a durabilidade que se projeta, ela está com uma responsabilidade daquelas. Mas, sai caro... Já pensou ser uma profissional de nível superior e não poder exercer a profissão? Ela, a partir de ontem, fica proibida de trabalhar, de repetir vestido, cruzar as pernas, chorar em público, proibida disso, daquilo e quase tudo. Uma bonequinha de luxo, que anda e que fala, no Palácio de Isabel (Elizabeth II). Não é fácil, para uma moça do seu tempo. Diana, a mãe do noivo, não agüentou o tranco. Mas, para não dizer que não falei de flores, acho que ela tem porte de rainha. E nome, também. Descontraída, bonita e sóbria. Ela pode se sair muito bem.
No meio da solenidade fiquei sabendo que aquela outra mocinha, de branco, é irmã da Princesa. Fiquei imaginado o que passaria naquela cabeça. “Já que não tenho um príncipe pra casar, vou segurar o rabo do vestido da minha irmã rainha”, poderia ter sido isto. Claro! E a auto-estima dessa coitada? Acho que essa vai ter dificuldade de arranjar um marido. O sujeito que se aproximar dela vai pensar: “o marido da irmã deu o Reino da Inglaterra. E eu, tenho que dar o que?” É cacête... Visse?
E, os pais delas? Como absorveram a idéia de ser pai da futura Rainha da Inglaterra? A mãe, que servia prosaicas e intragáveis refeições, a chatos e exigentes passageiros de uma companhia aérea, junto com o pai, controlador de vôos numa torre de controle de Gatwick.
Assisti a tudo e fiquei analisando aquilo, ao meu modo. Pena que o espaço seja exíguo para debulhar mais opiniões. Ah! Fiquei assustado com algumas imagens de piruas reais usando chapéus prá lá de exóticos. Uma pandega. Tinha cada marmota... Havia uma neta da Rainha, filha da tal de Sara Ferguson, que tinha na cabeça uma alegoria do tipo escola de samba, como da Beija Flor de Nilópolis e na época de Joãozinho Trinta. Veja essa foto a direita.
Para terminar, tenho que dizer que me lembrei da minha mãe, quando contava histórias da Carochinha, para me fazer dormir. Quando ela percebia que eu já ia pegar no sono, dizia: “Eles se casaram e foram felizes para sempre e entrou pela perna do pinto, saiu pela do pato, Senhor Rei (da Inglaterra?) mandou dizer que contasse quatro". The End e que sejam MESMO felizes para sempre!
NOTA: As fotos foram tiradas do Google Imagens

quarta-feira, 27 de abril de 2011

Presença Holandesa

Quando eu era menino, ia sempre a Fazenda Nova – onde moravam meus avós e tios – para temporadas, muitas vezes por longo tempo, ao ponto de me matricularem, temporariamente, nas escolas locais. Nessas ocasiões, eu ficava intrigado com a presença, nas salas de aula, de um grande número de coleguinhas agalegados, isto é, lourinhos e com olhos azuis. Afro descendentes, nenhum que fosse para quebrar a brancura reinante. Mais intrigado ainda quando, com o tempo, ouvi algumas pessoas explicando que eram holandeses. Ôxente, holandês só tem na Holanda, esse povo não sabe o que diz, pensei comigo!
Foi preciso crescer mais e estudar a História do Brasil e de Pernambuco, em particular, para começar a desatar o nó que havia na minha cabeça. Quando virei professor de Economia Brasileira, então, as coisas ficaram claras de vez.
Quem conhece a História do Brasil sabe que, durante 24 anos, Pernambuco foi dominado por holandeses invasores, entre 1630 e 1654. O que estava em jogo era o domínio da comercialização do açúcar produzido na região. Os portugueses produziam, mas eram os holandeses que monopolizavam o comercio do produto no mundo inteiro.
O que foi desastroso para Portugal, terminou sendo benéfico para Pernambuco que tem um saldo dos mais positivos dessa época, principalmente, pelo que restou da administração do Conde João Maurício de Nassau-Siegen (vide foto a seguir), à frente dos negócios holandeses na região. Nassau não mediu esforços nem dinheiro. Investiu nas artes, nas ciências, na medicina e na infra-estru tura do Recife. Até hoje a cidade usufrui desse legado. É tanto que não falta quem sustente a tese de que melhor teria sido que os holandeses houvessem ficado por aqui. Nassau é lembrado e homenageado emprestando seu nome em diversos logradouros (ruas, pontes, bairros ...) e até entidades, nas cidades pernambucanas.
Diante dos gastos exorbitantes, a Holanda afastou o Cara e colocou no seu lugar um conselho de administradores que, ao contrário de Nassau, adotou uma política severa e contrária à vontade do povo, já afeito ao regime holandês. Oprimidos pela nova administração os lusos-brasileiros apressaram-se por organizar um movimento de expulsão dos invasores, na forma de continuas rebeliões. O processo levou ao que se denominou de Insurreição Pernambucana, movimento liderado pelo Senhor de Engenho João Fernandes Vieira, que era português, secundado por André Vidal de Negreiros, pelo negro Henrique Dias e o índio Felipe Camarão (Poti). Os holandeses foram derrotados em batalhas no Monte das Tabocas, em 1645, e nos Montes Guararapes, em 1648 e 1649. Com pouca resistência os invasores foram, aos poucos, abandonando Pernambuco até que, em 1654, deixaram definitivamente o Brasil.
Aconteceu, porém, que somente os mais abastados e poderosos tiveram condições de abandonar o Brasil, deixando para trás os pobres coitados sem grana ou, então, aqueles já radicados e com famílias montadas. É provável que alguns tenham feito a opção de permanecer. Temendo represálias dos vencedores luso-brasileiros fugiram, açodadamente, para o interior da região, onde se estabeleceram, fundaram vilas, constituíram famílias e negócios. Foram eles os responsáveis por gerações e gerações – até hoje – de agalegados e de olhos azuis que povoam os agrestes nordestinos, particularmente, os pernambucanos.
Durante os recentes feriados da Semana Santa andei praquelas bandas e pude recordar meus tempos idos e meus colegas “holandeses”, nas escolas de Fazenda Nova. Eles continuam se reproduzindo, lourinhos e com os zoinhos azuis. Na feira do sábado, no Brejo da Madre de Deus, essa

coisa se revelou mais forte. Por todo lado vi "holandeses". O garoto que, por alguns trocados, carregou minhas compras era um puro holandês. Veja a carinha esperta, dele, na foto acima. Ah! a copeira de nome Neném, na casa do meu irmão, tem um olho azul da cor do céu. (vide foto abaixo). Conversando com as pessoas locais fiquei sabendo de coisas incríveis: existe uma localidade afastada da área urbana do Brejo da Madre de Deus, denominada Bandeira, onde os habitantes vivem em verdadeiro gueto, não se misturam com pessoas de outra raça e todo mundo tem o biótipo holandês. Eles são arredios e têm aversão a visitantes. Mantêm-se isolados da civilização. “Plantam e comem o que plantam. Criam e comem o que criam e só se casam entre eles!”, foi o que me disse uma popular feirante do Brejo. Tentando descobrir mais coisas, fiquei pasmo quando uma prima, que tenho por lá e é dona de uma pousada rural, me disse que na localidade da Barra do Farias (10km. distante de Fazenda Nova) existe uma Sinagoga! Será? Não fui conferir, mas, vou atrás disso logo que puder. É bom lembrar que os holandeses que invadiram Pernambuco eram todos de origem judia. A Sinagoga da rua do Bom Jesus (antiga rua dos Judeus), no Recife, foi fundada pelo invasores holandês e foi a primeira das Américas.
Pelo visto, eles continuam aqui! Aliás, já me disseram, em familia, que somos descendente de holandeses... tenho muitos parentes "holandeses"!
Nota: Fotos do blogueiro. A de Mauricio de Nassau foi obtida no Google Imagens.

segunda-feira, 18 de abril de 2011

Memórias da Paixão

Há poucos dias, um amigo de juventude (colega no Colégio Marista e na SUDENE... e até hoje!), Joe Gonçalves, sugeriu-me escrever sobre minha família. Ele se referia às histórias da família Mendonça, de Fazenda Nova. Aquilo foi uma cobrança construtiva, é claro. Aconteceu durante a solenidade da inauguração, aqui no Recife, do belo Teatro Luiz Mendonça, meu tio, mestre na arte teatral. (vide: http://gbrazileiro.blogspot.com/2011/03/luiz-mendonca-vive.html) Não tive dúvidas e logo em seguida falei sobre o homenageado e minha convivência com ele. Mas, aquilo não seria tudo. Agora, que começa a temporada da Paixão de Cristo de Fazenda Nova, aflora na minha memória alguns episódios interessantíssimos. No principio, ainda na década de 50, as coisas eram bem amadorísticas, muito diferente do profissionalismo de hoje, em Nova Jerusalém. Meus avôs – Epaminondas e Sebastiana Mendonça – à frente da família e com a experiência do clã, em fazer teatro amador, tomaram no peito a missão de mostrar teatralmente a vida, paixão e morte de Jesus Cristo. Um misto de catolicismo exacerbado e de vontade de fazer teatro educativo. O publico? O povo da Vila e das redondezas, incluindo os do pé da Serra. Jamais se imaginou que aquela iniciativa – nascida da leitura que o velho Epaminondas fez numa revista da época denominada Fon-Fon, sobre o espetáculo alemão de mesma temática, na cidade Oberamergau – se transformasse nessa produção hollywoodiana de hoje. Foto a seguir. Eu era bem criança quando a coisa começou e pouco entendia aquela euforia que se instalou no meio dos Mendonça. Lembro, sim, do entusiasmo do meu avô – ele vinha de Fazenda Nova, nos visitar, toda segunda-feira – que, na época, não tinha outro assunto a não ser a Paixão de Cristo. Aquilo ficou marcado na minha memória de criança. As primeiras encenações ocorreram nas ruas da Vila e nas casas mais proeminentes do local. Palácios, templos, arruados foram arranjados e as cenas se desenrolavam enchendo de emoções – muitas lágrimas derramadas – do publico. O elenco era composto de atores, na maioria deles, com o sobrenome de Mendonça. O papel principal era de Luiz Mendonça, Tio Lourinho na intimidade, que durante muitos anos foi “crucificado”, até mesmo depois, no grande teatro da Nova Jerusalém, a partir dos anos 70. Era tudo feito com muito amadorismo e criatividade sem fim. O publico cada vez maior foi o grande e decisivo incentivo para que a coisa se transformasse no sucesso de hoje. No item criatividade duas coisas que, com o tempo, fiquei sabendo e não posso esquecer: o contra-regra da encenação era meu avô, que ficava extenuado após a cena da crucificação, porque a ele cabia empunhar uma folha de madeira compensada e simular os trovões que ocorrem na hora da morte de Cristo. O compensado, quando agitado ininterruptamente, produzia um barulho similar a uma trovoada. Outra coisa divertida, explicada pelo meu tio Lourinho, atendendo à minha curiosidade, foi saber da fórmula para a produção do sangue derramado, por ele, no papel de Cristo. Aquele sangue jorrando aos borbotões me deixava intrigado. “Ele me “confidenciou” garantindo ser um segredo de bastidores:“ ...a gente mistura gema de ovo com mercúrio cromo, rapaz. Fica igualzinho a sangue, preste atenção”. Houve um ano que uma cena virou comédia: durante o percurso de Cristo, sendo levado para o calvário, açoitado impiedosamente pelos soldados romanos, um grupo de beatas vindas do pé da Serra do Cachorro, trajando luto fechado e cabeça coberta com véu, combinaram de se juntar e impedir que os centuriões batessem no Cristo. “Pelo amor de Deus parem, seus desgraçados, Jesus já não agüenta mais. Ele já apanhou por demais! Parem, parem!”, gritou a líder das beatas se atracando com a guarda romana. “Ôxente, que foi que deu nelas?”, resmungou o ator soldado. Até “Jesus Cristo” caiu na risada... Nem precisa dizer a reação do publico. Ocorre que o ingênuo povinho de Fazenda Nova tomava aquilo como a uma coisa mais do que real. Pura inocência matuta do nordestino. Uma coisa linda! Elas não sabiam que aqueles chicotes eram simples tranças de cebola envolvidas com um pano vagabundo de cor preta. E as lapadas eram feitas de modo a não machucar tio Lourinho. Daí em diante ficou impossível levar a encenação nas ruas de Fazenda Nova. Foi quando Plínio Pacheco, meu tio por afinidade, aconselhou a família a construir Nova Jerusalém. O resto, o mundo todo já sabe. Se me ocorrer novas lembranças, as contarei. NOTA: Foto do Google Imagens

sexta-feira, 8 de abril de 2011

A propósito de Direitos Humanos

Eu não havia concluído meu artigo semanal para este Blog, desenvolvendo uma critica ao atual estado dos Direitos Humanos no Brasil, quando fui surpreendido com a notícia da chacina de Realengo, no Rio. Aquilo só fez corroborar com minha linha de raciocínio da hora, ao mesmo tempo que me deixava em estado de choque diante das imagens da TV. Acontece que se fala muito em Direitos Humanos no Brasil. Propalam-se os avanços, até. Comparado com o que ocorria no passado há um pouco de razão. O cidadão brasileiro, porém, continua refém de uma série de imperfeições e inseguranças que, no final das contas, são verdadeiros atentados aos direitos humanos e sem perspectivas de solução, haja vistas para o terror de ontem, no Rio de Janeiro. Há muito tempo o brasileiro comum perdeu o direito de ir e vir tranquilamente nos espaços urbanos ou rurais, por conta das chances de sofrer algum tipo de percalço. As famílias vivem hoje em verdadeiras prisões, com residências ou condomínios providos de grades e portões de segurança máxima, além de vigilância ostensiva, para se proteger dos vândalos e assaltantes, produzidos por um sistema social cruel, arcaico e indigno. Quem poderia imaginar que um treslocado entraria atirando, à queima roupa, matando inocentes adolescentes, dentro da própria escola? É doloroso ver tudo aquilo. Mas, o problema, sem dúvida, está na base das regras e políticas sociais vigentes: falta educação de base, secundada por lições de ética e civismo, falta oportunidades dignas de emprego, os salários são aviltantes, crianças morrem por falta de assistência médico-social ainda nos primeiros anos de vida, e, os que sobrevivem, em boa parte são jogados ao desamparo das ruas, sujeitas às drogas e à miséria criada pelo mundo do crime e projetando uma sociedade sem futuro. A gente com oportunidade e que se aventura pelo meio do mundo, fica admirado com coisas normais e corriqueiras onde o direito humano, digamos, é direito de fato. Na minha recente temporada na Austrália, muito me admirou a qualidade de vida daquela gente. Quanto respeito ao ser humano! Todo mundo tem direito à escola, ao bom emprego, ao transporte de massa digno, aos serviços de assistência à saúde, a circular qualquer hora do dia ou da noite sem temer um assalto ou agressão. O trânsito, meu Deus, é tranqüilo até nas horas de rush. Não vi um só acidente, durante quase um mês! Nem vi as hordas de motoqueiros que grassa no Brasil e que atormenta o motorista cumpridor das regras normais de trânsito. Não há perigo de surgir do nada um “dono” para sua carteira ou bolsa e o comum roubo de celular no Brasil parece ser uma piada, na cabeça de um australiano. Não se entende para que sirva um celular alheio. Só pra se fazer uma idéia, caro leitor ou leitora, testemunhei uma cena, digna de ser relatada: num movimentado parque de Sydney, rodeado de cafés, bares e bistrôs observei uma bolsa de senhora “abandonada” no gramado por, pelo menos, meia hora, tempo em que saboreei um café, acompanhado de bom papo. Fiquei pasmo observando aquilo lá. A bolsa ficou intocada, por bom tempo (vide foto, a seguir), até que a dona se aproximou e levou-a depois de brincar e empinar um helicóptero de brinquedo com o filhinho pequeno. Onde isto seria possível no Brasil?Mesmo entendendo que a Austrália é rica e pode ser uma exceção, é lamentável ver como, no Brasil, estamos "patinando" nas nossas políticas sociais, necessárias para que possamos falar em Direitos Humanos, com a fronte erguida. Quem acredita, por exemplo, no Bolsa Família como solução vai ver o que lhe reserva no futuro. Não é essa a solução! Ao invés disso, Governos, deveriam promover o desenvolvimento econômico sustentável, daqueles geradores de emprego digno, com salários justos, acoplado a um forte choque de gestão nos setores da segurança e da educação, valorizando/respeitando o professor e o policial. E, por aí, começar a construir um país mais civilizado. Isso, sim, tem futuro. Deu certo noutras nações. Por que não no Brasil? NOTA: Foto do Blogueiro

segunda-feira, 4 de abril de 2011

Pobre turismo brasileiro

Crescem, cada vez mais, as preocupações quanto à competitividade do Brasil, por ocasião dos mega-eventos Mundial de Futebol de 2014 e as Olimpíadas de 2016. Há apreensões dentro e fora do país. Esses últimos dias exacerbam-se as criticas quanto ao atraso das obras dos estádios. Especula-se que a situação está pior do que o que ocorreu na África do Sul. Fala-se em politicagem na FIFA, mas, cá prá nós, a verdade está aí e os fatos (e fotos) não negam. Mas também, é preciso frisar que a questão não se resume aos atrasos das construções dos estádios. Há um mundo de outros itens preocupantes, que inclui: infra-estrutura viária, aeroportuária, urbana, prestação de serviços (transportes de massa, taxis, hotéis e restaurantes, segurança, assistência médica de emergência, entre outros), para receber as levas de torcedores estrangeiros. Dá vontade de fugir para bem longe, na hora do “pega...” Também, não é para menos! Uma pesquisa recentemente divulgada, pelo Fórum Econômico Mundial, dá conta de que o Brasil perde posição no ranking mundial de competitividade no setor turismo. O país ficou no 52º lugar entre os 139 países avaliados. Na pesquisa anterior (2009) ocupou o 45º posto. É o 7º destino nas Américas. Foi ultrapassado, agora, pelo México e Porto Rico, que levavam desvantagens anteriormente. Tenho andado muito lá por fora. Quem acompanha este Blog sabe do que falo. Infelizmente há uma brutal diferença entre o Brasil e os países que visitei recentemente. Até a África do Sul surpreendeu-me: aeroporto funcional e ágil (a Copa do Mundo 2010 ajudou muito), estrutura viária e serviços de atenção ao turista sem dever a qualquer outro tradicional destino turístico. Se a comparação for com países da Europa nem se fala. Mesmo alguns países bem remotos como a Nova Zelândia, que visitei recentemente, pude conferir visíveis diferenças da entrada à saída. O Brasil não dispõe de nem um aeroporto que possa receber o mega-avião Airbus 380 (dois andares e até 845 passageiros). A Nova Zelândia tem! Acho que duas coisas estão bem claras para o mundo ligado no turismo: a primeira é que a atividade se expande economicamente e em progressão geométrica na medida em que a comunicação, o marketing turístico e os meios de transportes evoluem de modo acelerado. A segunda coisa é que há um crescente interesse das pessoas – sobretudo os jovens – em correr o mundo e gozar das delicias que é se expor à novas sociedades e culturas e curtir novas paisagens. Tudo isto, sem falar no “boca-a-boca” que se faz no mundo inteiro, que é a melhor propaganda de um destino turístico. Essas coisas têm levado a que países pobres ou ricos se preparem competentemente para receber os visitantes. É um dos melhores nichos da economia globalizada, sem dúvida E o Brasil, coitado, anda capengando. Cada vez mais nos distanciamos da competência, apesar da riqueza cultural, ecológica, gastronômica, etc. Claro que há muitos estrangeiros que visitam o Brasil e volta fazendo um “boca-a-boca” positivo. Mas, há uma imensa legião que volta às origens decepcionada com o receptivo brasileiro: os aeroportos estão ultrapassados (veja foto de Guarulhos - S. Paulo) e em crescente colapso. Ninguém gosta de correr riscos de segurança e aqui é inevitável. Ninguém gosta de taxista suado e fedorento, mas tem que se submeter a esse desconforto. É difícil se comunicar, salvo por gestos e mímica, porque poucos falam inglês ou espanhol. O serviço nos restaurantes deixa a desejar. Os transportes públicos não funcionam e se, por azar, precisar de um socorro médico, corre um risco danado. O Brasil vai despencando no ranking e, pelo visto, tem sombrias perspectivas. Basta ver o perfil do Ministro da pasta do Turismo, que, segundo dizem, não obstante as oitenta primaveras vividas, promove bem um motelzinho de terceira categoria, em São Luis do Maranhão, como sendo uma atração nacional em matéria de hospedagem, tipo fast-food. Pobre Turismo Brasileiro... NOTA: Foto obtida no Google Imagens

terça-feira, 29 de março de 2011

Luiz Mendonça vive!

“As pessoas não morrem, ficam encantadas” foi o que Guimarães Rosa disse, aos 18 anos, diante do esquife de um colega de faculdade. Ao longo dos tempos esta frase vem sendo lembrada por muitos mortais. Gosto demais dessa figura criada por ele. E, hoje, de fato acredito nesse tal de encantamento porque vejo entes queridos, hoje na eternidade, se transfigurando em ruas, praças, avenidas, escolas e bibliotecas, centro de artes e teatro. São formas em concreto, idéias e muita inteligência, criadas por homens e mulheres, para eternizar nomes. São os encantados encantando os viventes. Esta semana assisti uma dessas maravilhosas formas de transfiguração ao testemunhar a inauguração, aqui no Recife, de um moderno teatro batizado com o nome do encantado Luiz Mendonça, meu tio, pelo lado materno. Indiscutivelmente, uma justa homenagem a um dos maiores defensores da cultura popular do Nordeste, Pernambuco em particular, nas praças do Sudeste, desde quando ninguém sabia ainda quem era Ariano Suassuna ou Luiz Marinho, entre outros autores nordestinos. Convivi com esse homem obstinado pelas artes cênicas. O Tio Lourinho – como era chamado na intimidade – respirava e transpirava nas 24 horas, de cada dia, a arte de encenar e encantar platéias. Desde muito jovem ele dominava a cena familiar – todos com imensa vocação para se postar diante da ribalta – e exercitava a arte dramática, como autodidata, mesmo nos mais simples momentos da vida em família. O povo de Fazenda Nova, onde ele nasceu e cresceu, teve nele o mentor da vida voltado para o teatro, base econômica e social daquela vila até hoje, onde é encenada a Paixão de Cristo no maior teatro ao ar livre do mundo, a Nova Jerusalém. Foi ele mesmo a figura principal na idealização daquela monumental obra, desempenhando o papel de Cristo durante muitos anos, desde que o drama era encenado nas ruas da Vila. O texto original, intitulado de “O Drama do Calvário”, foi escrito por ele em parceria com um certo Ozires Caldas. Perseguido político pela ditadura militar de 1964, por ser o diretor do teatro popular do MCP –Movimento de Cultura Popular, do Recife, no Governo Miguel Arraes – refugiou-se com mulher e filho, no Rio de Janeiro, cidade onde terminou construindo sua carreira de teatrólogo brilhante e ganhando fama internacional. Diretor teatral de mão cheia conquistou o Prêmio Molière de Teatro, em 1974, láurea máxima do teatro nacional. Acompanhei de perto sua brilhante ascensão nos palcos cariocas e paulistas, na década de 70, época que morei por bom tempo em São Paulo e vivia dando escapadas pelo Rio. Ao lado do Tio Lourinho, vivi momentos deliciosos nos bares da vida carioca: a princípio, íamos sempre terminar a ronda da noite na Pizzaria La Fiorentina, no Leme, onde a turma do teatro se encontrava após seus respectivos espetáculos. Por lá conheci os nomes mais famosos do teatro e da TV da época. Lembro de Bibi Ferreira, Grande Otelo, os casais Jece Valadão e Vera Jimenez, Tarcisio Meira e Gloria Menezes, Dina Sffat e Paulo José, a divertidíssima Gracinda Freire, Francisco Milani (este, certa época, andou apaixonado pela minha irmã Leninha), entre muitos outros. Na plenitude da minha juventude dourada, eu achava aquilo o máximo e, inclusive, fui, várias vezes, tido como sendo ator de teatro. É a tal história, “diga-me com quem andas e eu te direi quem és”. Luiz Mendonça era muito querido no meio. Sempre acompanhado pela esposa Ilva Niño, atriz de teatro e da Globo, até hoje, quando chegavam eram acolhidos com entusiasmo. A partir de algum tempo, talvez cansados da badalação no Leme, Mendonça e Niño passaram a “fazer ponto” num cantinho do Bar Amarelinho, em plena Cinelândia. Fui, inúmeras vezes, encontrá-los. Eu dizia que lá era o escritório dele. Ele achava graça e confirmava, dizendo que era ali onde descobria novos valores. Foi assim que descobriu e lançou nomes como Elba Ramalho, Tânia Alves e Elke Maravilha (antes apenas modelo profissional). Andou por lá até morrer. Nunca me esqueço que, numa dessas noitadas da Cinelândia, encontrei na mesa dele o grande autor Dias Gomes, em plena produção do Bem Amado e pegando, na hora e em meio a boas gargalhadas, um bom mote para sua trama na TV: na ocasião Mendonça contava o episódio da dificuldade que o pai dele (meu avô), Epaminondas Mendonça, teve por não conseguir inaugurar um novo cemitério em Fazenda Nova, por falta de um defunto. Ninguém morria, no lugar! A oposição política ao velho meu avô, chefe político do pedaço, sugeria que ele próprio “batesse a caçoleta” e inaugurasse o novo campo santo da Vila. Epaminondas não inaugurou o cemitério mas, logo a seguir, isto virou capitulo do Bem Amado e, recentemente, argumento principal do divertidíssimo filme de mesmo nome. Como ocorre sempre aos humanos, num belo dia do ano de 1995, Luiz Mendonça se encantou e deixou sua história para ser contada pelos que ainda estão na fila esperando o encantamento. Contaram-me que no velório dele houve samba e cachaça, no hall do Teatro João Caetano. Incelenças, como nos palcos que ele dirigiu. Esta última encenação, encomendada (dirigida) pelo próprio, eu perdi... Aqui no Recife, o Teatro Luiz Mendonça nos lembrará sempre esse cara arretado. Transfigurado, ele vive e tem 80 anos!

Nota: A foto é de arquivo de família e na ocasião ele tinha apenas 17 anos. Com cara de galã.

segunda-feira, 21 de março de 2011

Melbuorne e New Castle

Pelo que percebi, Sydney está para a Austrália o mesmo que o Rio está para o Brasil. Já Melbourne é a São Paulo da Austrália. Até no clima. Sentimos um friozinho gostoso, por lá. Acontece que a gente de Sydney anda bem à vontade e o clima reinante é de descontração. Sandália havaiana legitima (a peso de ouro) nos pés, camiseta e muito colorido. Em Melbourne predomina mais formalidade e a gente se veste com mais rigor. Menos coloridos e mais engravatados. O mulherio tem porte mais elegante e indumentária mais sóbria.
É muito gostoso caminhar por Melbourne, uma cidade construída ao estilo moderno (foto a seguir), embora que com muitos prédios antigos bem preservados. Tudo muito limpo, silencioso, trânsito ordenado e muita segurança. Como no restante do país, não há sinais de pobreza. Os mais pobres podem ser os músicos amadores, que no fim da tarde, tiram seus instrumentos da embalagem e dão belas audições, em praça pública e em troca de moedas. Quisera fosse esse o tipo de pobreza pedinte, no Brasil. Nem quero falar...

Achei que a cidade tem um quê de Europa. De Inglaterra, por exemplo. As lanes (ruas estreitas e transversais de grandes artérias), que lembram Brighton, são sensacionais: repletas de lojinhas e boutiques graciosas e tentadoras ou, então, bares e bistrôs irresistíveis, enfileirados no meio da via. Vide foto a seguir. Paramos, varias vezes, nesses pontos para um café, uma refeição ou um bom vinho australiano. E claro, apreciar a vida passar. Vida neste caso, traduzida por gente. Muita gente. Bonita e elegante. Minha filha logo alertou-nos para o fato de que a elegância australiana mora em Melbourne e a cidade é considerada a capital da moda. De fato, vi um povo muito fino, tanto no porte, quanto no trato. E a culinária local é também um destaque. O capricho dos restaurantes na apresentação dos pratos entusiasma o cliente, mesmo os que cheguem sem qualquer apetite. Veja esta foto, a seguir.Lembro, ainda, o jantar num restaurante asiático contemporâneo (dentro do cinematográfico Cassino Crown) cuja comida – meio chinesa, algo japonesa, com toques tailandeses –ainda posso sentir o sabor. Lá, o serviço foi um verdadeiro ritual. A comida parecia feita para deuses. Um requinte sem limites. Cheio de surpresas e do “prá-que-isto?”. Inesquecível. De resto Melbourne é um verdadeiro jardim. O jardim do estado de Victória.
Noutro estilo, algo mais country (quase outback australiano) foi o que encontramos, num fim de semana longo, percorrendo o Hunter Valley e a cidade de New Castle. Mais ao norte de Sydney, a região foi um destino, à parte, nessa nossa bela aventura. Começamos justo pelo Valley, que é uma região turística muito especial, voltada para o que chamamos de enoturismo. Foi bem a propósito para quem adora vinhos e vinícolas, como é meu caso. Entramos e saímos de várias delas, (Vide foto, a seguir) onde degustamos e compramos dos melhores vinhos australianos. Tudo devidamente acompanhado de queijos de primeira qualidade made in Austrália, patês e uma imensa variedade de amêndoas, defumados, pães, torradinhas e bolachinhas deliciosas. Descobri, então, que os australianos são peritos nesses acompanhamentos gostosas. Ah! E tem, ainda, geléias fenomenais. Inclusive as de pimenta. Além de chocolates imperdíveis. Geniais. New Castle, a cidade do meu genro, é um lugar primoroso. Cidade pequena – mais ou menos 300 mil habitantes – mas com completa estrutura e vida urbana dinâmica. Todos os requisitos de uma metrópole. Inclusive vida cultural. Excelente comércio, Shopping Center de primeira linha e teatros diferenciados.
Mas, New Castle foi importante para nós em virtude do mergulho que fizemos no seio de uma família australiana. Conviver com os Davidson foi a melhor prova que tivemos da finesse e do australian way of life quando recebe. Do aconchego à boa cerveja servida pelo anfitrião, na hora certa. Da sala de jogos ao breackfast servido na imensa varanda com vista monumental para um brilhante e verde vale. Do piano ao amanhecer, tocado pela dona da casa à Pavlova(*) servida na sobremesa. Vide foto a seguir. Pareceu um sonho. Mas, foi tudo real e como acabo de contar. (*) Pavlova é a mais famosa sobremesa australiana. Parece um grande e cremoso suspiro coberto de chatilly (ou yogourt) e frutas diversas.
Nota: Fotos do próprio Blogueiro

Supremo Desalento

Acordei cedo neste 15 de setembro de 2026, alimentado uma das maiores esperanças dos últimos tempos para meu Brasil: a sessão extraordinári...