Transcorria
o mês de maio de 1963, quando recém-saído das bancas do ensino médio fui
conduzido por um “padrinho” ao 19º. andar do Edifício JK, no centro do Recife,
onde fui apresentado a um Senhor sisudo e circunspecto, titular da Superintendência
de Desenvolvimento do Nordeste – SUDENE, com vistas à oportunidade do
meu primeiro emprego. Foi assim que conheci o cidadão Celso Monteiro Furtado
(1920-2004). Meu “padrinho”, Luís Bastos e Silva, era economista de vanguarda e
coronel reformado do exercito, de linha progressista, envolvido nos debates da
época, liderados pelo tal Senhor sisudo e circunspecto. Bastos e Silva integrou
a equipe do Conselho de Desenvolvimento do Nordeste – CODENO, órgão governamental
precursor da SUDENE, e formulador do famoso Relatório/Diagnóstico Regional do
Nordeste Brasileiro, plasmado pelo GTDN – Grupo de Trabalho para o
Desenvolvimento do Nordeste e bases para a criação da Superintendência Regional.
Na minha jovem cabeça, sem que houvesse mesmo uma exata consciência do contexto, estava dando um passo decisivo para o futuro profissional que
terminei construindo. Naquela época era minha intenção seguir a carreira de
Arquiteto, razão pela qual fui encaminhado para estagiar, como Desenhista, numa
Divisão de Cartografia da Casa. Conforme regimento interno, ninguém era
admitido sem passar por um treinamento especifico e comprovar habilidade num
posterior concurso interno. Encurtando a história fui aprovado e no mês de dezembro do mesmo ano fui
contratado.
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| Celso Furtado (Foto de Fábio Motta-Ag. Estadão) |
Viver o clima
interno daquela SUDENE original era algo contagiante. Quadro de profissionais
jovens e idealistas que só falavam em progresso e desenvolvimento. Jovem
desenhista e prestes a passar por um vestibular à Universidade fui com facilidade
inoculada pelo vírus que grassava naquele prédio de considerar a carreira de
Economista como a pegada do futuro. Dito e feito: passei no vestibular e quatro
anos após fui graduado e integrante da coincidentemente denominada de Turma Celso Furtado, da Universidade
Católica de Pernambuco – UNICAP. Submetido a um novo concurso interno, o desenhista
deixou de desenhar e passou a contribuir na formulação de politicas de
desenvolvimento regional. Foram 33 anos de Casa.
Sem
desmerecer meu “padrinho”, Bastos e Silva, a quem sou grato até hoje, foi Celso
Furtado que de forma quase direta me levou ao destino profissional que tomei.
Aquele homem sisudo – ele era de fato – com seus pensamentos e obras publicadas
moldou uma classe de profissionais que até hoje pontificam nos grandes debates
e decisões nacionais. Um verdadeiro tipo inesquecível. Foi Furtado quem
instalou o duradouro debate da problemática questão regional no Brasil e na
América Latina. Deu importante contribuição atuando na CEPAL - Comissão Econômica
para a América Latina, entidade ligada às Nações Unidas, criada no ano de 1949,
em Santiago do Chile e se tornando na única escola de pensamento econômico do
chamado Terceiro Mundo. Além de criador e primeiro superintendente da SUDENE,
destaco dois importantes postos da vida publica desse homem: primeiro Ministro do
Planejamento do Brasil (Governo João Goulard) e Professor de Desenvolvimento
Econômico da Universidade de Paris. Quer saber mais clique em: http://www.sudene.gov.br/quem-foi-celso-furtado
Se vivo fosse,
o paraibano Celso Furtado estaria completando 100 anos de vida no próximo dia 26 de julho
corrente. Este centenário vem suscitando inúmeras homenagens póstumas, inclusive
esta do Blog do GB, num preito de gratidão pela monumental obra que legou e estimulador
da formação de uma diferenciada classe de pensadores econômicos.
Tive duas
oportunidades de me ver próximo ao homem sisudo depois que me tornei Economista:
uma primeira ocasião, não consigo precisar a data (meados dos 70), foi em
Paris, quando ele ditou uma conferencia na Universidade de Paris (Sorbonne). Vi
de longe, tamanha era a assistência. O homem atraia multidões para ouvi-lo. Mal
pude entrar no auditório. Na segunda vez, porém, tive mais sorte: convidado para as
comemorações dos 50 anos da SUDENE ele esteve presente, falou e autografou
livro. Impossível não lembrá-lo. É de fato um tipo inesquecível.
NOTA: A foto ilustrativa é de Fabio Motta, AE, Obtida no Google Imagens)










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