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segunda-feira, 20 de julho de 2020

Um tipo inesquecível


Transcorria o mês de maio de 1963, quando recém-saído das bancas do ensino médio fui conduzido por um “padrinho” ao 19º. andar do Edifício JK, no centro do Recife, onde fui apresentado a um Senhor sisudo e circunspecto, titular da Superintendência de Desenvolvimento do Nordeste – SUDENE, com vistas à oportunidade do meu primeiro emprego. Foi assim que conheci o cidadão Celso Monteiro Furtado (1920-2004). Meu “padrinho”, Luís Bastos e Silva, era economista de vanguarda e coronel reformado do exercito, de linha progressista, envolvido nos debates da época, liderados pelo tal Senhor sisudo e circunspecto. Bastos e Silva integrou a equipe do Conselho de Desenvolvimento do Nordeste – CODENO, órgão governamental precursor da SUDENE, e formulador do famoso Relatório/Diagnóstico Regional do Nordeste Brasileiro, plasmado pelo GTDN – Grupo de Trabalho para o Desenvolvimento do Nordeste e bases para a criação da Superintendência Regional. Na minha jovem cabeça, sem que houvesse mesmo uma exata consciência do contexto, estava dando um passo decisivo para o futuro profissional que terminei construindo. Naquela época era minha intenção seguir a carreira de Arquiteto, razão pela qual fui encaminhado para estagiar, como Desenhista, numa Divisão de Cartografia da Casa. Conforme regimento interno, ninguém era admitido sem passar por um treinamento especifico e comprovar habilidade num posterior concurso interno. Encurtando a história fui aprovado e no mês de dezembro do mesmo ano fui contratado.
Celso Furtado (Foto de Fábio Motta-Ag. Estadão)
Viver o clima interno daquela SUDENE original era algo contagiante. Quadro de profissionais jovens e idealistas que só falavam em progresso e desenvolvimento. Jovem desenhista e prestes a passar por um vestibular à Universidade fui com facilidade inoculada pelo vírus que grassava naquele prédio de considerar a carreira de Economista como a pegada do futuro. Dito e feito: passei no vestibular e quatro anos após fui graduado e integrante da coincidentemente denominada de Turma Celso Furtado, da Universidade Católica de Pernambuco – UNICAP. Submetido a um novo concurso interno, o desenhista deixou de desenhar e passou a contribuir na formulação de politicas de desenvolvimento regional. Foram 33 anos de Casa.
Sem desmerecer meu “padrinho”, Bastos e Silva, a quem sou grato até hoje, foi Celso Furtado que de forma quase direta me levou ao destino profissional que tomei. Aquele homem sisudo – ele era de fato – com seus pensamentos e obras publicadas moldou uma classe de profissionais que até hoje pontificam nos grandes debates e decisões nacionais. Um verdadeiro tipo inesquecível. Foi Furtado quem instalou o duradouro debate da problemática questão regional no Brasil e na América Latina. Deu importante contribuição atuando na CEPAL - Comissão Econômica para a América Latina, entidade ligada às Nações Unidas, criada no ano de 1949, em Santiago do Chile e se tornando na única escola de pensamento econômico do chamado Terceiro Mundo. Além de criador e primeiro superintendente da SUDENE, destaco dois importantes postos da vida publica desse homem: primeiro Ministro do Planejamento do Brasil (Governo João Goulard) e Professor de Desenvolvimento Econômico da Universidade de Paris. Quer saber mais clique em: http://www.sudene.gov.br/quem-foi-celso-furtado
Se vivo fosse, o paraibano Celso Furtado estaria completando 100 anos de vida no próximo dia 26 de julho corrente. Este centenário vem suscitando inúmeras homenagens póstumas, inclusive esta do Blog do GB, num preito de gratidão pela monumental obra que legou e estimulador da formação de uma diferenciada classe de pensadores econômicos.
Tive duas oportunidades de me ver próximo ao homem sisudo depois que me tornei Economista: uma primeira ocasião, não consigo precisar a data (meados dos 70), foi em Paris, quando ele ditou uma conferencia na Universidade de Paris (Sorbonne). Vi de longe, tamanha era a assistência. O homem atraia multidões para ouvi-lo. Mal pude entrar no auditório. Na segunda vez, porém, tive mais sorte: convidado para as comemorações dos 50 anos da SUDENE ele esteve presente, falou e autografou livro. Impossível não lembrá-lo. É de fato um tipo inesquecível.       

NOTA: A foto ilustrativa é de Fabio Motta, AE, Obtida no Google Imagens)
      


segunda-feira, 11 de maio de 2020

Plúmbeas Nuvens

Eu era bem menino quando, num certo dia de inverno, vi meu pai dizer que teríamos um dia plúmbeo. Curioso, pedi a explicação do que se tratava. Pacientemente meu pai me explicou e guardei aquilo para o resto da vida. Nuvens pesadas e cor de chumbo cobriam nosso mundo. Hoje, na minha madureza e, vez por outra, lembro-me do falecido.
Neste momento de quarentena, pandemia e crise político-social, valho-me da imagem desenhada pelo meu pai, quando percebo as dificuldades que pairam sobre o mundo e sobre o Brasil particularmente. Costumo ser sempre otimista, mas, não sou alienado. Nuvens plúmbeas, sim, pairam sobre a humanidade. É certo que mudaremos muita coisa no modus-vivendi e isto já foi tema de outros posts. Difícil é acertar nesses modos. Principalmente nas nações menos desenvolvidas e em níveis educacionais tênues. A Educação como base, sempre.
Indiscutivelmente é preocupante, o caso brasileiro, onde os sinais cinzentos projetam tempos de dificuldades sem distinguir pobres dos ricos, resultante das dificuldades das administrações locais da pandemia. Num pais de dimensões continentais como o nosso, isso não seria de estranhar.
Mercê das frágeis estruturas sociais, os brasileiros enxergam – com uma cínica surpresa – a miséria agora realçada pelas intensas luzes emitidas pela crise sanitária.  As coisas se tornaram bem mais nítidas e sem quaisquer cortinas de fumaça. Eis aí o desafio daqui pra frente. A verdade é que, historicamente, pandemias se repetem e a nação não pode esperar sentada.
Investimentos em infraestrutura social – moradias dignas, saneamento básico, assistência universal de saúde eficiente, educação de base, lições de civilidade e respeito ao próximo, emprego para a população economicamente ativa e justas remunerações, entre outras variáveis – produção dinâmica e muita vergonha e patriotismo na condução politica do país.
Nada de novo! Tudo muito batido e discutido. Principalmente nas campanhas eleitorais, embora esquecido no day after dos pleitos. Tanto pelos vencedores, quanto pelos derrotados.  
Tive uma vida profissional dedicada à promoção do desenvolvimento regional do Nordeste brasileiro, na velha SUDENE, e tendo como referencial a necessidade de uma integração e equilíbrio de renda entre as regiões brasileiras. Valeu o esforço. Fiz parte de uma equipe, da qual me orgulho, composta de profissionais patriotas e incansáveis batalhadores pela sua gente. Contudo, não foi o suficiente. Ainda é forte, nas cabeças que nos governam, a ideia e que o Brasil é um “arquipélago” e que cada ilha que se vire para sobreviver ainda persiste. Exemplo do abandono no qual vivemos, são as imagens de miséria que observamos a olho nu e nas áreas mais nobres das nossas metrópoles. No Recife, uma legião de pobres fazem das calçadas suas camas e amanhecem sempre sem condições dignas de sobreviver. Para esses, principalmente, as nuvens são sempre plúmbeas.  
Família inteira dorme sempre ao relento, na Avenida Santos Dumont, Recife
 NOTA: Foto da autoria do Blogueiro.

 

segunda-feira, 14 de outubro de 2019

Mar Negro


Pra inicio de conversa, não me refiro ao Mar Negro existente na Europa, entre a Turquia, a Rússia e outros países menores da região. Falo, sim, de um mar muito próximo e que vem sendo tingido de negro num acidente ambiental sem dimensões definidas e causando transtornos onde somente e sempre se respirou ares de paraíso e com águas verdes e turquesa. 
Praias do Nordeste brasileiro neste mês de Outubro
Parece ironia, mas, depois do alarmante episódio das queimadas – que, segundo monitores, ocorre anualmente, certa época do ano, na Amazônia – eis que uma surpresa desagradável atinge o Brasil, em particular as costas do Nordeste brasileiro: toneladas de petróleo (óleo pesado) foram derramadas ao mar, causando danos inestimáveis à fauna e à flora marinha. Não se sabe, ao certo, a origem desse óleo, embora já se comprove, laboratorialmente, ser óleo de características venezuelanas. O fato é que do Maranhão à Bahia são registradas ocorrências expressivas desse derramamento. Nove estados da região já descobriram os estragos nas suas praias. Animais marinhos já chegam mortos ou cobertos pelo produto nocivo, às areias do litoral. Tartarugas se arrastam cobertas de óleo e, como que, pedem socorro. Peixes bóiam mortos. Um golfinho morto foi encontrado numa praia alagoana, este fim de semana, e já cercado de abutres. 
Golfinho encontrado morto numa praia alagoana
Mais de 160 praias do litoral nordestino registram pontos de manchas desse derrame. As ocorrências acontecem desde os primeiros dias de setembro passado. Correntes marítimas dessa zona do Atlântico trazem com facilidade o óleo derramado de algum ponto ainda não identificado. Nosso plácido mar se tornou um mar negro.
Tartaruga marinha banhada de petróleo bruto. 
Sabe-se que mais de mil navios petroleiros transitaram, nesse período, por este espaço marítimo levando o óleo bruto para diferentes destinos – Europa, África e Oriente – tornando mais complexo identificar o responsável pela tragédia que vem sendo provocada. Várias hipóteses estão sendo levantadas: limpeza do porão de algum desses navios, com descarte de uma carga restante; vazamento por defeito no casco da embarcação; falha no transbordo de óleo navio-navio, em alto mar, e, por fim, a possibilidade de um navio fantasma (não identificado pelos radares de controle terrestre) naufragado. Os navios fantasmas ocorrem quando saídos da Venezuela, escapando do bloqueio norte-americano, desligam os radares e navegam de modo anônimo. Logicamente que, pelo volume da descarga de óleo, fica difícil precisar se se trata de uma ou mais embarcações. Na verdade é um mistério, pelo menos até agora. 
Entidades governamentais (IBAMA, Marinha, Petrobras e Policia Federal) e não governamentais, institutos de pesquisas, ambientalistas, profissionais da área se mobilizam para desvendar o mistério que envolve a situação, realizar a limpeza das praias, manifestar a revolta e identificar a origem do derramamento. Os prejuízos são, até agora, incalculáveis. Além dos malefícios causados às flora e fauna marítimas, já se projetam prejuízos às comunidades litorâneas que vivem da pesca e, também, expressiva queda nas atividades turísticas do litoral nordestino, numa hora de pré-temporada de verão, quando o Nordeste atrai levas de turistas nacionais e estrangeiros.
O mais surpreendente, para muitos, é a relativa passividade da sociedade em geral diante deste fato tangível e preocupante. Aqueles que bradaram aos quatro ventos, aqui e no exterior, suas revoltas pelas recentes queimadas na Amazônia estão calados diante deste outro fato tão alarmante quanto o primeiro. Ora, é um gravíssimo caso de agressão ao meio ambiente, também. Lembrando que estamos numa época em que a mobilização da sociedade tem surtido repercussões políticas positivas, não seria o caso de manifestações especificas? Onde andam os ambientalistas? Os Governos federal e locais têm que se mover com vontade e formas mais enérgicas para que tenhamos este caso elucidado.    

NOTA: As fotos que ilustram foram obtidas no Google Imagens   
 
  

sábado, 4 de maio de 2019

Resistência Nordestina


Tenho ouvido falar sobre a elaboração de um Plano de Desenvolvimento para o Nordeste que vem sendo formulado pela SUDENE. Isto me fez lembrar os bons tempos em que atuei na área de planejamento da SUDENE original. Claro que fiquei surpreso com a novidade. E soa como novidade porque essa SUDENE que aí existe, parecia, salvo melhor juízo, se dedicar, exclusivamente, da administração dos instrumentos de incentivos fiscais a investimentos privados.
Elaborar um plano de desenvolvimento regional sempre fez parte efetiva daquela antiga Agencia nos “anos dourados” da ação governamental no Nordeste. Com uma equipe especialmente formada, competente e bem articulada, planos primorosos foram aprovados e fazem parte do acervo da Instituição, se tiveram o cuidado de preservá-los. Muitos, inclusive, podem ser bem atuais. Pelo menos em parte. Participei intensamente daqueles esforços e que, confesso, foram experiências que deram consistência à minha formação profissional. Costumo dizer que sou (ou fui?) uma cria da SUDENE. Faço questão de afirmar que tenho orgulho pessoal dessa história.
Antiga sede da SUDENE, no Recife, hoje desativada.
Bom, ouvir falar dessa iniciativa de hoje induz-me imaginar na maneira como isso vem se processando. Soube de nomes, das antigas, que estão contribuindo para este plano de agora. Fico contente porque pode significar um resgate do passado. Sem que caiam naturalmente no espirito saudosista. Os tempos são outros, a conjuntura política e econômica é outra e os estados integrantes da região já são mais autônomos que dantes (como devem ser). |Estes definem seus próprios objetivos, prioridades e metas a perseguir. E sempre  dispõem de estratégias políticas particulares para viabilizá-las. É coisa, a meu ver, que põe em risco a ideia da composição regional. Enfim, estamos diante de um jogo político bem diferente do passado. E, por cima disso, um fundo financeiro mais exíguo ainda. Terá a SUDENE, de hoje, recursos orçamentários para custear mobilizações politicas, pesquisas e diagnósticos atualizados? Se já eram escassos nos idos passados, imagino agora.  Dessa forma, se os estados da região vão contribuir com o esforço, é coisa a ser conferida mais adiante. Espero que sim, porque o velho adágio de que “a união faz a força” continua válido.

Outro desafio, contudo, será principalmente ajustar este plano aos propósitos do atual Governo Federal. Onde e como essa coisa pode ocorrer?  Não ouvi falar, nem em campanha ou nos primeiros meses de Governo, a respeito de um Plano Nacional ou coisa que o valha. Ao invés disso, ouço, sim, falar em redução de gastos, remontagem da máquina pública, cortes de orçamentos, muitos sem propostos plausíveis, entre outras medidas. Tampouco ouvi falar de regionalização de custeios e investimentos como prever a Constituição. Nunca! Pensando bem, pode até ser uma coisa estranha para muitas cabeças que atuam na Esplanada dos Ministérios em Brasília. As preocupações são outras inoportunas e sem sentido adequado.

Para instigar mais ainda minhas reflexões, escutei rumores de mudança do titular da Superintendência.  Sei não... Mas, o que vem pela frente é pura interrogação.

Encerro meus comentários desejando sucesso à iniciativa e certo de que estamos diante de mais uma expressão da resistência nordestina. 

NOTA: Foto obtida no Google Imagens 

  

quinta-feira, 10 de janeiro de 2019

Miopia Política

É curioso viver num país onde todo mundo fala e pede democracia, embora que, a rigor, a grande maioria não saiba praticá-la. Este é o caso concreto do Brasil de hoje.
E, neste caso, não me refiro aos fuxicos entre amigos ou familiares, que passam e se perdem no tempo e no espaço e, no final das contas, não contam. Ao invés disto, refiro-me ao absurdo comportamento de políticos e governantes opositores. Por que não entender e praticar a Democracia pela qual lutam e pregam? Francamente, é pura miopia política.
Um exemplo desse comportamento político adverso está na atitude incorreta dos atuais  governadores do Nordeste face ao Poder Federal constituído, tendo à frente o Presidente Jair Bolsonaro. São opositores, tudo bem, cumprem um papel relevante e exercitam um poder que lhes foi garantido pelo voto popular, mas, além de evitar o Poder Central  fazem vistas grossas à importância do pacto federativo que forma e fortalece a República. Governam cidadãos e cidadãs dos seus respectivos estados, do mesmo modo que o Presidente Bolsonaro governa para todas e todos brasileiros. Quer queiram ou não queiram! Ignorar esses princípios democráticos é, também, pura atitude antirrepublicana.
Palácio do Planalto (Brasilia) 
Bom, preciso explicar os motivos das minhas preocupações: grande parte da minha vida profissional, desde a formação básica, foi de defender os interesses públicos que promovessem o desenvolvimento socioeconômico do Nordeste. Pensando bem, segui a carreira de Economista inspirado e imbuído desse ideal, embora que a intenção primeira fosse outra. Vibrei nos bancos da Universidade descobrindo fórmulas e estratégias para logo pô-las em prática. Vivi momentos alternados de esperanças e desilusões ao lidar com a teia do poder centrado em Brasília. Não foi fácil. Isto, diga-se de passagem, em tempos de ditadura e de democracia. Trabalhei numa equipe de valorosos técnicos - na velha SUDENE -, todos empenhados no ideal de servir à Região. Foram anos de glória e muito suor, que a cada dia retroalimentava o ideário do Grupo. Glórias que se dissipam nas páginas do passado e que os atuais governantes estaduais não têm ideia e, tenho pra mim, nem mesmo se interessam por saber o que aconteceu. Os quantos contribuíram com os esforços daquela Entidade Regional sabem do que falo e sabem o quanto significa um bom entendimento entre os poderes central e estaduais. Aliás, eis aí uma forma lógica de fazer política.
E, veja bem, diante de um Governo que prima, muito mais, em refutar os abusos dos governos passados do que outra coisa, cabe a indagação: qual o quinhão que restará ao Nordeste, no atual contexto?
A noção de promover e desenvolver ações regionais já não são lembradas como antes e a estrutura administrativa governamental montada pouco aponta para ações desta natureza. O que nos resta é esperar – como no passado – por medidas marginais que só poderão representar pífios ganhos para a Região.
Sede da SUDENE original, onde o conceito de Região foi forjado e defendido.
Não sou saudosista. Não! Até porque, sinto-me feliz percebendo que a SUDENE cumpriu um papel relevante e os frutos estão às vistas. Só não vê, quem não quer. Mas, muito ainda se faz necessário. Há, é verdade, uma nova Sudene por aí. Mas, com todo respeito, está longe de repetir o sucesso da original.    
Urge, portanto, a revisão desse comportamento regional irresponsável e que trate de recuperar os canais de comunicação com o Planalto, sob pena de resultar num alto custo aos nordestinos.

NOTA: As fotos que ilustram o post foram obtidas no Google Imagens 
                   

segunda-feira, 29 de maio de 2017

Fraturas fratricidas

A semana passada não foi nada animadora. O país, praticamente, parou diante de tantos cambalachos políticos. Um presidente na corda bamba; um Congresso buscando se “organizar” para enfrentar uma eleição indireta; protestos e badernas; um Superior Tribunal Eleitoral diante de um formidável desafio de cassar ou não cassar uma chapa eleita, mas, sob suspeita; uma operação saneadora (Lava-jato) e de agrado popular sob a mira destruidora de uma corja de políticos poderosos mas apontados como réus; uma dupla de empresários ladrões livres e soltos confortavelmente em Nova York e, em conseqüência, um povo em estado de perplexidade total. Este é o caldo chamado Brasil que a cada dia fica mais denso e mais assustador.
Noutra ponta, como se tudo acima fosse pouco, eis que surgem vozes preconceituosas maculando a dignidade de irmãos nordestinos taxando-os de gente de segunda categoria e vocacionados à profissão de ladrões. Foi o que ocorreu na Câmara Municipal de Farroupilha (Rio G. do Sul), tendo a vereadora Eleonora Broilo, do PMDB, como protagonista. Durante uma sessão da referida Câmara, essa infeliz brasileira, sem qualquer noção democrática disse, num desastrado aparte: “Primeiro, em relação a nordestino saber fazer política não sei se eu concordo muito. Eu acho que os nordestinos sabem muito bem se unir, sim, para roubar. Eles sabem se unir para ganhar propina. Eu acho que eles sabem se unir para aumentar a corrupção. (...) Talvez eles até não saibam nem falar muito bem, mas sabem roubar que é uma maravilha.”
Eis acima a figura da vereadora gaúcha, Eleonora Broilo
Como que fazendo coro com a desinformada vereadora gaucha, lá em Curitiba (Paraná), outra racista/fascista sulista, que atende pelo nome de Nelma Baldassi, saiu-se com outra infeliz ofensa a seus irmãos nordestinos, aos baianos exatamente, comentando sobre o recente atentado em Manchester (Inglaterra). A idiota (não há outro qualificativo) colocou numa rede social o seguinte disparate: “só lamento que tenha sido em Manchester e não na Bahia. Seria lindo ver aquela gente nojenta e escurinha da Bahia explodindo.” Ora, meu Deus, é inacreditável que isso venha a ocorrer. Não faltaram reações nos quatro cantos do país. Isso é coisa que tem de ser combatida. 
Nelba Baldassi e seu disparatado comentário
Este é um dos dolorosos defeitos de cidadania do brasileiro comum. Há um tremendo e endêmico espírito de preconceito contra os nordestinos. Principalmente por parte dos sudestinos. Em nada podem se julgar melhores do que nós, mas, assim cometem com natural frequência. No primeiro caso acima é flagrante a ignorância dessa vereadora gaúcha ao atribuir, generalizadamente, a pecha de ladrões vocacionados a todo cidadão nascido no Nordeste. A miopia dessa parlamentar é simplesmente indecorosa, ao partir, certamente, do principio de que não existe ladroagem no chamado Sul Maravilha. Ela desconhece ou se faz desconhecer que vem de lá as mais bombásticas das noticias de roubos, propinas e falcatruas do mundo político e empresarial.
Vejo nesses dois episódios exemplos atuais da falta de espírito republicano permeando nossa sociedade. Nisso, aliás, também reside boa parte do desandar político desta Nação.  Entendo que enquanto não houver um equilíbrio sócio-político-econômico nesse “arquipélago” político-administrativo do nosso país, não viveremos uma verdadeira Nação. O Brasil só será um grande país quando houver respeito mutuo entre seus irmãos, independente das origens regionais e suas condições sócio-econômicas. Essas fraturas fratricidas devem sarar com urgência. Leva tempo, já sei. Mas, são necessárias. E, para essas figuras preconceituosas devem ser dados caminhos de correção e punição por se tratar de crime contra o verdadeiro espírito de nacionalidade.  

NOTA: Fotos colhidas no Google Imagens



quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

SUDENE: Minha Escola

No dia 15 passado completaram-se 55 anos de criação da SUDENE. Participei de um almoço com companheiros da chamada velha guarda da Autarquia reunida para lembrar o fato.  Muitas cabeças pensantes, de uma época de ouro do Planejamento Regional, compareceram para rememorar seus feitos e “trocar figurinhas” avaliando os resultados que hoje são exibidos.
Sai desse almoço contente por haver confraternizado com velhos companheiros de labuta e, ao mesmo tempo, lamentando o atual estado da arte que construímos a duros sacrifícios, em tempos politicamente difíceis e de poucos fios para recompor um tecido sociopolítico esgarçado.
Entrei na SUDENE muito jovem. Recém havia chegado aos meus dezoito anos de idade. Sequer havia prestado vestibular à Universidade. Na minha casa a lei era dura e prevalecia a sabedoria popular que ditava: “quem não trabalha não come!” Tive sorte. Levado pelas mãos de um alto funcionário da Autarquia fui admitido – após uma fase de capacitação e avaliação – como técnico de nível médio. Comecei como desenhista num departamento que tratava de definir e traçar a infraestrutura rodoviária regional. Fiz treinamento, vejam só, até no exterior para melhor exercer minha função. Naquela época, minha intenção era seguir a carreira de Arquiteto, por isso que ser desenhista parecia ser o ideal. Contudo, influenciado fortemente pelo ambiente que passei a vivenciar, terminei me interessando pelos temas relativos aos problemas econômicos regionais. Não deu outra... fiz vestibular de Ciências Econômicas, sai-me muito bem e pouco tempo depois virei Economista da SUDENE. O resto dessa história é sabida sobretudo pelos  que me conhecem.
Vi a SUDENE crescer, produzir bons resultados e se projetar no Brasil e no resto mundo como sendo uma das mais competentes agencias de desenvolvimento regional daqueles tempos. Participar ativamente dessa experiência foi cursar o melhor dos cursos. Lá, aprendi tudo que as Universidades por onde passei não me ensinaram. Décadas depois, vi também o fim melancólico que ocorreu em 2001, quando já me encontrava aposentado.
Olhando pelo retrovisor, vejo com clareza que a SUDENE dos meus tempos – não esse arremedo que aí está tentando sobreviver – se constituiu, durante 40 a 45 anos, na maior escola da formação de profissionais diferenciados e dedicados, com afinco, à promoção do desenvolvimento socioeconômico regional deste País. Inúmeros foram os valores que de lá saíram para contribuir com o sucesso de intervenções governamentais em outras  áreas deprimidas do Brasil e do exterior.
Ao longo dos tempos a sigla SUDENE se tornou uma senha para o sucesso. Tenho muito orgulho de haver usufruído desse sucesso. Dentro do Brasil ou nos vários países por onde passei, em missões técnicas ou empresariais, esta senha abriu-me as melhores portas. Pensando bem, ainda abre! Hoje, porém, tenho que reconhecer que tudo isso é passado. Fecharam a Escola. Mas, afinal, a missão foi ou não cumprida? Disparidades inter-regionais persistem neste país? E as intra? Eis aí uma formidável questão a ser explorada.
Bom, indiscutivelmente, tudo neste mundo é finito. E, pelo visto, foi assim que julgaram ser a SUDENE. Por uma vontade política discutível, em 2001,deram por encerrados os trabalhos. Portas fechadas e pessoal redistribuído, a Casa da Inteligência Regional deixou de existir. Fala-se que seu acervo documental tem sido gradativamente destruído, num perverso apagar de memórias técnicas que somente num país como o nosso é permitido. Até o monumental edifício sede - propriedade da Autarquia - perdeu os letreiros garbosos e, ao invés disso, colocaram o do Tribunal Regional do Trabalho que ocupa a área antes sede da SUDENE.
Depois, num gesto “generoso” e de cunho meramente político Lula, o Presidente, reabriu a Sudene, em dimensões minimizadas, através da Lei Complementar 125/2007. O que lá existe é um pretenso modelo de agencia de desenvolvimento, onde funciona, tão somente, o núcleo burocrático de programas sem os alcances do passado e destinados a calar uma resistência teimosa de alguns idealistas na incansável luta pelo resgate do status do passado. A pergunta que não cala é: foi certa a decisão política de fechar a SUDENE?
Pelo mesmo espelho retrovisor de antes, lembro-me de uma das minhas passagens por Paris, ocasião em que me encontrei com o perito das Nações Unidas, o francês Jean Pierre Barriou. Ele havia estado, pouco antes, em missão oficial aqui na SUDENE. Barriou me garantiu que sugeriu uma SUDENE revendo sua missão. Muitas das funções que “penduraram”, ao longo dos anos, na estrutura da Agencia não se coadunavam com a missão que lhe fora confiada originalmente. Urgia reduzir aquele gigantesco organograma e, com isso, reduzir seu quadro de 2.200 funcionários, para algo próximo de 200. Essa proposta não agradando aos da Casa foi “esquecida”. Quando decretaram o fim, em 2001, lembrei-me dessa conversa. Mas, atenção, o formato dessa atual SUDENE não foi o sugerido por Barriou. Paciência!
Tentando ser realista e para finalizar, considero que, na esteira do seu sucesso, a SUDENE estruturou os estados do Nordeste de forma competente para que estes tomassem um rumo virtuoso do desenvolvimento econômico, social e político. Nada mais inclusivo do que essa estratégia! Digamos que os provendo de “asas”, como se filhotes fossem, ensinou-os a voar. E voaram. Os esforços conjuntos, traduzidos pela figura de um Conselho Deliberativo atuante e politicamente forte, deram lugar às iniciativas independentes. Descobriram o caminho direto para o Planalto Central e, desse modo, perguntavam: para que SUDENE?   
Não me julgo saudosista, porém, lamento porque fecharam a minha Escola.

NOTA: Foto obtida no Google Imagens 


                  


segunda-feira, 26 de agosto de 2013

Nordeste em Pauta


Comecei a semana passada indo ao Rio de Janeiro, numa missão de trabalho, para participar de mais uma rodada de discussões no bojo do projeto Integra Brasil, promovido pelo Centro das Indústrias do Ceará – CIC e que teve lugar na sede do Banco do Desenvolvimento Econômico e Social – BNDES. A pauta central do encontro teve como objetivo colher opiniões de empresários, representantes de governo e estrangeiros a respeito do Nordeste, na atualidade. Por lá passaram executivos de empresas brasileiras de sucesso e que atuam no Nordeste, executivos do Governo Brasileiro, membros da Academia e representantes de entidades Internacionais.
Foi contagiante ver os executivos da Agrícola Famosa, da Cosmética Boticário e dos Magazines Luiza falarem dos respectivos projetos no Nordeste e nos frutos que colhem. O primeiro, atuando no interior do Rio Grande do Norte, Ceará e Pernambuco, é hoje o maior produtor mundial de melão (variadas espécies), maior exportador nacional do produto e, cheio de entusiasmo, bendizer o Sol da região, que lhe proporciona colher frutos dos mais saborosos e que atendem aos paladares mais exigentes dos Estados Unidos, Europa e Oriente. O representante d’O Boticário, por sua vez, revelou-se satisfeitíssimo com o desempenho da sua marca no Nordeste, presente em milhares pontos de venda, inclusive nas mais simples localidades. Com uma grande central de distribuição na Bahia, a marca vem fazendo a cabeça dos nordestinos, com produtos ecologicamente corretos e de fama internacional, O Boticário é maior produtor do gênero no país e o nono no ranking mundial. No final do bloco de depoimentos empresariais, Dona Luiza, fundadora e presidente dos Magazines Luiza, discorreu, com brilho e muita energia, sobre sua satisfação de haver entrado no mercado nordestino, após comprar a rede de varejo Lojas Maia, originária da Paraíba. Pelo que disse está vendendo “adoidado” nas praças onde se instalou. Fez menção aos Programas Minha Casa, Minha Vida e ao complementar Minha Casa mais Bonita, sob a tutela do Governo Federal, que vem expandido de modo impressionante suas vendas na Região. Colecionei muitos números dessas empresas, mas, resolvi não incluir, propositalmente, neste artigo para, ao contrário disso, manifestar-me preocupado com a seguinte linha de pensamento: embora entendendo que o Nordeste tem que ser visto como um mercado em expansão, graças principalmente à política de inclusão social, com a Bolsa Família, Bolsa Gás, programa de habitação popular e respectivo aparelhamento doméstico, entre outros, por que os empresários locais não têm tido oportunidades de crescer? Não é intrigante? Bancos regionais, não existem mais. As grandes redes de supermercados desapareceram com o passar dos tempos, sendo tragadas, inclusive, por grupos estrangeiros. A Ypióca não é mais dos cearenses. D. Luiza veio com todo gás (ela parece ser cheia disso) e numa lapada certeira “matou” a grife das Lojas Maia. Um advogado de visão empresarial fechou a banca de advocacia no interior paulista e se meteu no meio da aridez do interior potiguar e com pequeno investimento inicial implantou a maior produtora de melão do mundo, graças a uma moderna tecnologia da irrigação. Não satisfeito somente com o melão, diversificou e já produz banana, maracujá, melancia e, pasmem, produz aspargo da mais alta qualidade.  
Fica claro que falta aos empresários regionais a competência de quebrar paradigmas de produção tradicional, deixando espaços que só são vistos pelos empreendedores alienígenas. Preservar até morrer as tradições culturais, o renitente padrão da empresa familiar, alimentar o  temor de arriscar num contexto econômico moderno e não saber recorrer aos programas de incentivos governamentais, que terminam favorecendo quem vem de longe, parecem ser o padrão do empresariado regional. Um agressivo programa de incentivo ao empreendedorismo para mudar essa “psicologia” da inércia cairia bem sobre os esses protagonistas de negócios. Sobremodo nas novas gerações. Que os coordenadores e promotores do Integra Brasil estejam atentos a este viés.
O restante da rodada de discussões no BNDES ainda contemplou momento para os representantes do Governo que, como de se esperar, desdobraram-se para “vender o peixe” de Dona Dilma. Patéticos os que se referiram às obras de infraestrutura, como se tudo estivesse em franco progresso. Patéticos porque pareciam ser desinformados. Sem comentários.
Por fim, no espaço reservado aos depoimentos estrangeiros, o destaque ficou com o Professor Ignacy Sachs, um estudioso da questão nordestina, que causou certo impacto ao não trazer (aparentemente) um discurso preparado e, ao invés disso, jogar na cara da plateia uma pergunta contundente: “como está a reforma agrária do Nordeste?” Imaginem a surpresa de todos. Houve um silencio sepulcral... Seguido de alguns poucos comentários sem bons argumentos. Esta foi a Pauta Nordeste, no Rio de Janeiro, em 19 de agosto de 2013.

NOTA: O Blogueiro participou do evento como representante do Sindicato das Indústrias Metalúrgicas e Mecânicas de Pernambuco (SIMMEPE) e do Centro das Indústrias de Pernambuco (CIEPE)

 

 

sábado, 20 de julho de 2013

Pobre Periferia

Esta semana tive uma experiência interessante ao participar, em Salvador (BA), de um fórum para discutir a questão regional do Nordeste brasileiro. Vejam só... Vi-me novamente às voltas com o tema que permeou quase toda minha vida profissional, enquanto economista da Sudene. Este fórum foi um dos capitulo de discussões sobre a problemática nordestina, que vem sendo realizado por iniciativa do Centro das Indústrias do Ceará - CIC, sob o titulo de Integra Brasil, com o apoio das entidades de classe empresarial do restante do Nordeste brasileiro. O objetivo é produzir um documento/manifesto a ser levado às autoridades federais, cobrando – pela enésima vez – medidas políticas cabíveis e eficazes para livrar a Região da renitente situação de pobreza. Estou careca de tanto lutar por essa causa.
O povo nordestino vem, por pelo menos cem anos, clamando e reclamando da situação de desprezo e abandono das autoridades constituídas. Os recursos destinados são, quase sempre, paliativos e só chegam em doses homeopáticas, depois de muitos esforços, suor e sacrifício. São investimentos pequenos e localizados de forma a não atender o universo.
Durante os debates de Salvador fui me atualizando e conclui que mesmo depois de todos os esforços desenvolvidos pela Sudene, Banco do Nordeste, Dnocs, Chesf, entre outros órgãos de fomento, inclusive os estaduais, a Região continua mostrando índices econômicos e sociais que revelam o profundo fosso que a separa do Brasil Grande, centrado no Sul maravilha. Um dos mais flagrantes é o percentual do PIB regional em relação ao nacional: apenas 13,5%. Ainda! Pois é. E o Sudeste continua ostentando o maior percentual, que é de 55,4%. Este mesmo Sueste, vejam só, continua sendo o melhor agraciada com os maiores volumes de investimentos do Governo Federal. Só para que se faça uma ideia rápida, dados recentes mostram que mais de 50% dos financiamentos concedidos pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Social – BNDES são levados para projetos no Sudeste Beleza. Rodovias, portos, projetos do setor privado, escolas, hospitais, mobilidade urbana, eventos culturais e outras miudezas. Para melhor situar o leitor ou leitora, saibam que: o Norte responde por 5,3 % do PIB, o Sul por 16,5 e Centro-Oeste por 9,3.
Outro dado que merece uma reflexão é o das concessões do Programa Bolsa Família. Para onde vai o maior volume de recursos? Para o Nordeste é claro! Quanto? 51%. É ali que reside a pobreza, meus amigos e amigas. Tem prova melhor do que esta para revelar a situação de atraso da Região? Acho que não. A nossa gente ganha, agora, o bolsa, vai ao mercado, adquire alimentos, compra serviços e isso é razoável. Mas, compra, também, bens de consumo duráveis. Dinamiza o mercado local, é verdade. Todavia, ironicamente, na compra dos bens de consumo durável, a renda vaza para o Sudeste porque é de lá que vem a produção desses bens. Não é danado?  Fico indignado. Mas chega! Não vou mostrar nenhum número a mais. Tenho vergonha. Trabalhei anos a fio, numa competente equipe técnica, para mudar essa situação e a coisa parece ter sido inútil. Cabe, então, a pergunta: onde erramos?
Não, nós não erramos. Os erros que vêm sendo cometidos ficam por conta dos desmandos políticos e dos políticos incompetentes. Temos uma bancada grande, mas sem condições de levantar a voz.  A questão do Nordeste sempre foi e nunca deixará de ser uma questão política. Lembremo-nos que só se consegue alguma coisa quando ocorre a vontade política. E essas, infelizmente são espasmódicas. Foi dessa maneira que instituíram o Dnocs, a SUDENE, o BNB e a Chesf. Estes trabalharam e produziram. Mas, foi insuficiente. Faltou a decisão de investir de forma maciça, no tanto e no como dos projetos apresentados.

Naturalmente que o Nordeste cresceu, porque o Brasil cresceu e arrastou a Região. Mas o crescimento se deu concentrado nas regiões metropolitanas. Recife, Salvador e Fortaleza são provas concretas disso aí. Mas esse não é o Nordeste sobre o qual me refiro. O Nordeste que ronda sobre minha cabeça, neste momento, é aquele mais prá lá das metrópoles e capitais menores, sem rodovias dignas para alcança-lo, castigado pelas secas frequentes, onde o progresso é somente palavra inscrita no auriverde e augusto símbolo da pátria, onde a educação e a saúde inexistem, a moradia é subnormal, o roçado é perdido, onde o gado morre de sede e a fome impera. Falo de um Nordeste que carece de infraestrutura competitiva, de perfeita distribuição de águas (interligação de bacias hidrográficas), investimentos produtivos e de educação, saúde e emprego para sua gente.
Tomara que o Integra Brasil dos cearenses do CIC resulte num forte apelo político junto aos mandatários da Republica e deixemos de ser Pobre Periferia.

NOTAS: 1. Participei do evento em Salvador como representante do Centro das Industrias de Pernambuco - CIEPE e do Sindicato das Industrias Metalúrgicas, Mecânicas e de Material Elétrico de Pernambuco - SIMMEPE 
2. Foto obtida no Google Imagens



sexta-feira, 24 de maio de 2013

Deus é Brasileiro

O tornado que passou, esta semana, por Oklahoma (Estados Unidos) foi devastador. Sinto arrepios vendo as imagens na TV. Naquela região norte-americana já existe uma área identificada como sendo um corredor desses fenômenos. Fico pensando o terror que é viver por ali. Este último imprimiu uma velocidade de aproximadamente 300 km. por hora. Ocorre em poucos minutos ou mesmo segundos. Devasta, passa e desaparece tão rápido, quanto chegou. Num abrir e fechar de olhos, o mundo vem abaixo. Não resta pedra sobre pedra. Veja só esta imagem abaixo.
Os fenômenos da natureza sempre chamam muito minha atenção. Furacões, tufões, tsunamis, erupções vulcânicas, terremotos, enchentes, avalanches e similares são coisas do dia-a-dia planetário, com os quais o homem é forçado a viver e buscar formas de escapar.
Ocorre-me, porém, pensar que viver no Brasil equivale a viver numa região abençoada por Deus.  ¨Neste pedaço do planeta não se fala em tragédias gigantescas provocadas pela mãe-natureza. Somos um povo abençoado.¨  Fui enfático e, acredito que provocativo, numa dessas rodas de jogar conversa fora e molhar palavras. Não demorou muito e um dos companheiros, baixou o copo e saltou de lá, rápido com um furacão, falando mais ou menos assim: ¨Fico pasmo! Logo você fazer um discurso desses... e a seca que arrasa o sertão do Nordeste brasileiro com freqüência?   Parece até que nunca ouviu falar da Sudene¨.  Provocando porque ele sabia que eu fui dessa agencia regional de desenvolvimento. Era esperado que houvesse uma reação dessas.
A seca do Nordeste é também devastadora, concordo. Mas nada comparável com as destruições causadas por um terremoto, que, sobretudo, não dá rota, nem chance de fuga para quem quer que seja. O mesmo ocorre quando um tsunami ou um tornado, pela suas características arrasadoras. Nada para se comparar.
Uma estiagem chega aos poucos. É de ataque lento. Oferece condições de serem adotadas providencias de mitigá-la. Há sofrimentos, perdas e prejuízos, é claro. Mas, nada comparado com as destruições provocadas pelos fenômenos acima enumerados.
Por outro lado, há sim condições de convivências saudáveis com as estiagens e isto já foi provado em muitas outras regiões do planeta. De Israel e do México, por exemplos, vêm os melhores informes sobre boas experiências. ¨Conviver com a seca é a solução mais inteligente¨, afirmei ao meu amigo assustado com minha manifestação anterior. ¨Mas, é preciso vontade política para enfrentá-la¨, acrescentei.
Livre das grandes catástrofes que se registram mundo afora, o Nordeste seria um paraíso, houvesse vontade e decisão política dos governos. Estou cansado de afirmar isto, inclusive aqui no Blog. Prova disso é o que se pode observar nos belos oásis de produção de fruticultura irrigada, existente no extremo oeste de Pernambuco. Em pleno sertão brabo e seco, nos municípios de Petrolina, Lagoa Grande e Santa Maria da Boa Vista, além do vizinho município de Juazeiro, na Bahia, colhem-se as melhores uvas de mesa (vide foto a seguir), melões e mangas de qualidade comprovadas internacionalmente e lá...  lá não se morre de fome, nem se padece pela estiagem longa. Ela chega, sim! Mas, o sertanejo daquelas bandas já sabe como driblar. E ainda brinda o sucesso com os vinhos produzidos pelas bodegas do Paralelo 8, que se notabilizam pela alta qualidade dentro e fora do Brasil. O espumante é o carro-chefe. É tim-tim a toda hora saudando o Sol abrasador, que paradoxalmente se tornou o melhor amigo daquela gente. Graças a ele, ao solo arenoso e as águas do rio São Francisco, são tiradas entre duas e três colheitas de uva por ano. Lugar nenhum do globo registra essa produção. Isso tudo, graças a iniciativas locais que mobilizaram os atores sociais, incluindo pesquisadores, criadores, agricultores, o povo, as igrejas e os políticos bem intencionados. Deram-se as mãos, decidiram, montaram um especial esquema tecnológico e de financiamento e hoje estão ¨pulando na carne seca¨. Acho que de bode, que é farto na região. Dão exemplo de que o Nordeste brasileiro pode ser um paraíso, embora que os governos irresponsáveis que se sucedem sejam míopes e não enxergam essa realidade.
Então, lembrando o inicio da nossa conversa, acho, mesmo, que Deus é brasileiro, sim.  Meus amigos  – os da roda de bate-papo – ficaram calados, molhando palavras e pensativos. Eu? Pedi licença e fui prá casa. Fui...
NOTA: Fotos obtidas no Google Imagens.

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