quarta-feira, 22 de julho de 2026
Rivalidades Infelizes
A Copa Mundial de Futebol-2026 terminou e, para multidões, deixou saudades. O certame encerrado no último fim de semana, envolvendo 48 representantes de países dos cinco continentes, foi recheado de muitas emoções, além de gratas revelações de novos valores no mundo da bola. De cara, lembro-me do sucesso de um neófito, Cabo Verde, que conseguiu conquistar torcedores entre “gregos! e “troianos”. Indiscutivelmente, poucos espetáculos esportivos despertam tanta paixão quanto uma Copa e um confronto futebolístico entre duas seleções de países. Até porque não se trata apenas de um festival de partidas de futebol, mas, também, um encontro de histórias, culturas, estilos de jogo e identidades nacionais que, ao longo de quase um século, construíram o maior espetáculo do esporte mundial. Porém, e como me referi na última postagem, é também oportunidade para manifestações de ferrenhas rivalidades entre nações que, ao final das contas. pouco contribuem para o espírito referencial de uma disputa esportiva. Nessas horas, fico chocado, por exemplo, com a rivalidade extrema que há entre argentinos e brasileiros. Nada mais curioso do que presenciar a vibração eloquente dos brasileiros diante da vitória dos espanhóis, no domingo passado. Após uma eletrizante partida decisiva entre argentinos e espanhóis, os europeus levaram a melhor e levantaram um retumbante OLÉ! dos brasileiros, de norte a sul do país. Dizem que existem razões de ambas as partes e que a coisa tem fortes raízes. Meu neto de seis anos já se tomou de fervorosa torcida contra os portenhos. Segundo ele todos os coleguinhas “odeiam” a seleção argentina. É até engraçado para um guri da idade que tem. Mas, acho que começou cedo. Nunca mais vai tolerar perder para os argentinos. E pensar que essa rivalidade produziu momentos inesquecíveis. De um lado, Pelé, Garrincha, Zico, Romário, Ronaldo e tantos outros talentos que fizeram do futebol brasileiro uma referência universal. Do outro, Di Stéfano, Maradona, Messi e uma sucessão de craques que marcaram profundamente a história do futebol argentino. São duas escolas que, sem dúvidas, contribuíram para transformar esse esporte em uma linguagem melhor compreendida em todos os continentes.
Rivalidades podem mesmo soar como saudáveis. Alimentam o interesse do público, elevam o nível das competições e criam histórias que atravessam gerações. O problema, contudo, surge quando a rivalidade deixa de ser uma disputa esportiva e passa a alimentar sentimentos de hostilidade, desprezo e até ódio pelo adversário.
Nos últimos anos, infelizmente, temos assistido ao crescimento desse fenômeno mundo afora e episódios maléficos se multiplicam com episódios de provocações que ultrapassam os limites do bom fair-play. Cânticos ofensivos, manifestações xenófobas, atitudes racistas, agressões entre torcedores e uma permanente tentativa de humilhar o adversário parecem, para alguns, fazer parte do espetáculo.
Nada mais degradante do que o espetáculo insano cometido pelo selecionado argentino, ao final da partida na qual foram derrotados pelo espanhol, dando as costas ao palco da solenidade de entrega da Taça Mundial e das medalhas de campões aos europeus. (Foto a segiur) Fico imaginando como seria caso o Brasil estivesse no lugar da Espanha. Fora esse comportamento abominável há de se registrar as agressões que deflagraram, depois do apito final, contra atletas espanhóis e sem motivos concretos. As criticas internacionais rolaram na imprensa do mundo e não condiz com a tradição e os costumes portenhos.
Conheço relativamente bem a Argentina e os argentinos e considero importante fazer uma distinção fundamental. Esses comportamentos não representam o povo argentino. Da mesma forma, quando brasileiros protagonizam episódios lamentáveis, eles também não representam o Brasil. Generalizações quase sempre são injustas e impedem uma análise equilibrada dos fatos.
Entretanto, seria igualmente um erro fingir que o problema não existe. Em diferentes ocasiões, atitudes de intolerância ganharam espaço dentro e fora dos estádios, comprometendo aquilo que o esporte tem de mais valioso: sua capacidade de aproximar pessoas.
A Copa do Mundo talvez seja o maior exemplo dessa vocação integradora. Durante algumas semanas, bilhões de pessoas acompanham os mesmos jogos, vibram pelas suas seleções, conhecem culturas diferentes e compartilham emoções comuns. É justamente por isso que entristece ver manifestações que transformam o adversário em inimigo. Ora, meu Deus, o adversário existe para ser respeitado. Sem ele, não há competição. Sem competição, não há vitória digna de celebração. A grandeza de um selecionado não está apenas em vencer, mas em reconhecer o valor de quem enfrentou.
Infelizmente, parte das torcidas parece ter substituído o prazer da vitória pelo prazer de humilhar. Em vez de celebrar os próprios méritos, muitos preferem medir sua felicidade pelo sofrimento do outro. Essa inversão de valores empobrece o esporte e revela algo mais profundo sobre o tempo em que vivemos. No caso do domingo passado, los hermanos não souberam valorizar o titulo de vice-campeões e nem souberam respeitar os campeões espanhóis. Resta-nos agora esperar por 2030 quando teremos uma nova Copa, que promete ser maior, mais vibrante e quiçá sem infelizes rivalidades. NOTA: Fotos ilustração colhidas no Google Imagens.
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