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sexta-feira, 15 de maio de 2026
Blusinhas ao Léu
Aplaudi pouquíssimas coisas do nosso atual Governo. Quase nada. Recordo, porém, de uma medida que olhei com simpatia intitulada, correntemente, de Taxa das Blusinhas (estabelecida para cobrança de 20% de imposto de importação nas compras até US$ 50,00), muito efetuadas através de sites tipo Shopee, Shein e AllExpress. Simpatizei não por ser contra produtos importados. Muito pelo contrário. Sou liberal e entendo que produto importado pode custarmenos face aos preços internos, ter melhor qualidade e ser capaz de induzir o processo de aperfeiçoamento da produção nacional. Além do que gerar receitas fiscais, combinado com a coibição do contrabando. Estas, aliás, foram justificativas de sustentação da Medida. A coisa não somente agradou a uma infinidade de pequenos produtores e parecia ir muito bem, dando provas de eficácia, entre as partes beneficiadas e para o próprio Governo. Prova disto, inclusive, foram os resultados de arrecadação de impostos de importação que chegaram ao montante de RS$ 9,6 Bilhões, desde agosto de 2024, quando a Medida foi adotada, até Abril recente. Terça Feira (12), porém, para surpresa de meio mundo, o Governo resolveu dar uma marcha à ré e, numa Medida Provisória (MP), determinou o fim da Taxa. Assim, “adeus viola”. Blusinhas ao Léu! Ao Congresso resta analisar o caso e, dentro de 120 dias, bater o martelo.
Ora, meu Deus, neste momento está na cara de que se trata de mais uma manobra de caráter populista do Governo petista para agradar o eleitorado freguês dos sites de produtos populares e tentar levantar os índices de popularidade que anda despencando a cada dia. Como já dito, melhor explicando minha posição, considero que a renuncia fiscal em tela pode representar coisa de menor importância, dado que, os “parcos” Bilhões de Reais que deixam de ser arrecadados, serão insignificantes diante dos resultados eleitorais projetados. Resta saber qual a opinião dos varejistas brasileiros que experimentavam mais tranquilidade na comercialização dos seus produtos, enfrentando menor concorrência, por exemplo, de produtos chineses que entram “pra valer” e na grande maioria praticando dumping no processo de comercialização. Sem esquecer que isto vale, também, para grandes redes de lojas que, com razão, montaram suas plataformas de vendas na Internet. Se as grandes podem se ressentir, imagine os pequenos produtores de confecções (blusinhas!), artigos de couro (calçados e similares), entre outros. Aqui em Pernambuco, tenho certeza, que a retirada da Medida vai atingir em cheio os produtores de confecções localizadas no chamado Polo de Confecções do Agreste (Santa Cruz do Capibaribe, Toritama e Caruaru) onde a atividade se constitui na base econômica regional. Tenho experiência profissional de lidar com esse ramo industrial, e no citado Polo, desde a época da abertura comercial dos anos 90, quando pude dar assistência técnica (à época dirigente da Sudene) e depois nos anos 2003-2006 (quando atuando no Governo do Estado). Sei bem das dificuldades locais e já imagino o que pensam os produtores locais e em particular as costureiras que se esmeram nos modelitos e nos acabamentos dos vestuários que produzem, querendo concorrer à altura, ou melhor, com as confecções chinesas, vistas por lá como “demodê” e mal acabadas. Desconfio que o Governo deu um “tiro no pé” porquanto, sem calcular melhor, pode estar promovendo uma onda de desemprego e falências de pequenos produtores espalhados pelo país. E desempregados não garantem votos! Não falta quem diga, Brasil afora, que O Governo Lula atuou contra o micro e pequeno empreendedor. Concordo. Vi ontem numa entrevista, prefeito de uma das cidades do Polo afirmando que no seu município (Toritama/PE) conta com 3.287 unidades de produção, muitas das quais instaladas nas próprias residências. São costureiras trabalhando dia e noite. A dinâmica é tal que, durante as noites, o que se escuta são os ruídos das máquinas de costuras e plena atividade. São essas costureiras que vão sentir a insensibilidade governante que temos no posto maior da Nação.
Em Santa Cruz do Capibaribe (Foto acima) se estima que, a cada fim de semana, 150 Mil compradores acorre ao Centro da Moda da cidade. Graças à Taxa das Blusinhas os negócios cresceram a taxa de !9,2%, em 2025, e o Estado de Pernambuco recolheu 18,5 Bilhões de Reais e ICMS. Vamos e venhamos é um valor expressivo gerado por micro e pequenos produtores que, agora, vêm seus negócios atropelados por uma insanidade do Governo Central. O que ainda restará para incrementar essa guerrinha eleitoral? E sem as blusinhas? Nota: Fotos ilustrações obtidas no Google Imagens.
sexta-feira, 27 de junho de 2025
Xote in Rock
Entre as muitas noticias e repercussões sobre os festejos juninos deste ano em Pernambuco, uma se destaca e tem meu total apoio. Refiro-me às criticas que a consagrada Elba Ramalho fez após sua recente apresentação no palco de eventos em Caruaru. Com propriedade e autoridade de quem sabe da importância da música regional, ela manifestou sua opinião sobre a “diversidade” com a qual montaram a grade de atrações deste ano. Ocorre que por manobras e estratégias politicas, além das perspectivas de faturamentos, as Prefeituras pernambucanas visando atrair grandes públicos (potenciais eleitores!) nos festejos juninos dão preferencias e pagam cachês milionários a nomes de prestígios nacionais sem levar em conta seus gêneros musicais. Resultado é que sambistas, roqueiros e sertanejos se apresentam debaixo de aplausos frenéticos, ao invés de interpretes de xotes, xaxados e baião. Forró? Ah, esse já é batido demais. Os trios de pé de serra, que faziam as festas de antanho (termo mais do que próprio) nem pensar. Quando muito, conseguem espaços nas festinhas familiares ao redor de uma fogueira e de uma mesa de acepipes de milho. Lá nos denominados pátios do forró de Caruaru ou Gravatá, por exemplos, rolam espetinhos pré-fabricados e salsichões na brasa, pipocas para não dizer que não tem milho. E muitas cervejas e cachaça. Ah! Outra curiosidade é o fato de que não aparecem mais pessoas com as tradicionais roupas de matuto... Ninguém quer mais dar pistas de uma coisa chamada de matuto. Aliás, não existe mais matuto. Atualmente as mocinhas exibem trajes moderninhos, shorts bem cavados, com partes das nádegas à mostra, botas até os joelhos e blusinhas compradas na Shopee! Quando toca um rock elas se requebram e mostram para o que vieram. Neste caso, como não tem xote, elas se remexem segurando o short. Quando se fala em dançar uma quadrilha, como no passado, correm apressadas e exibem uma rica fantasia, como se fossem desfilar na Marques de Sapucai (Rio), numa noite de carnaval. Tenha dó. Eram tão lindas as roupas caipiras. Fui um gritador e quadrilhas de primeira. Quando entrava julho naõ conseguia falar de tão rouco. Alavantu! Anariê! Olha a chuva! Choveu!
Tenho criticado de modo veemente, neste espaço, as formas politizadas das promoções dos nossos festejos populares. Trata-se, na prática, duma forma moderna de distribuir “pão e circo”. Contudo, estão passando dos limites. Por oportuno, recordo que no carnaval do Recife, com a proposta de multicultural, vejo, com frequência, apresentações de indiscutíveis valores artísticos nacionais sem que, na maioria, não entendem de carnaval pernambucano. Inúmeros valores vocais locais ficam sem boas oportunidades e se contentam com palanques das periferias.
Observemos que nunca se ouviu falar do Maestro Forró, Alcymar Monteiro, Santana ou Elba Ramalho, por exemplos, sendo atrações principais nos festivais de Barretos (Festa do Peão/SP) ou de Parentins (Boi Bumbá/AM).
Lamentavelmente, vemos sendo apagados nossos reais valores culturais, colocando o rock no espaço do xote e do forró, sem que apareça um salvador das nossas tradições, como ocorre em todo país civilizado e ciente dos seus valores ancestrais.
quinta-feira, 29 de junho de 2023
Economia Junina
Hoje (29/06) é dia de lembrar e comemorar o Apóstolo Pedro, primeiro bispo de Roma e primeiro Papa da Igreja Católica Apostólica Romana. O mundo católico festeja a data de modos diferentes e conforme a cultura local. Somente uma coisa comum prevalece: toda coleta realizada neste dia e no mundo inteiro se destina a dar suporte ao erário do Vaticano, com vistas à manutenção do patrimônio da Igreja que se espalha mundo afora. Faço ideia da fortuna arrecadada e do quanto se faz necessário para essa manutenção. Mas, não vou explorar essa variante do assunto porque minha intenção é outra e bem doméstica. Comemorando o dia de São Pedro se encerram, oficialmente, os festejos do ciclo junino e dedicado aos Santos Antônio, João e Pedro, no mundo luso-brasileiro, sobretudo por essas nossas bandas nordestinas, das quais sinto orgulho de pertencer. Para um bom pernambucano, quando chega o mês de junho, a providência a tomar é “azeitar” as pernas para dançar um bom forró – principalmente o chamado pé-de-serra – e uma quadrilha junina, herdade dos portugueses colonizadores. Para encher o bucho o cardápio é especial contando com acepipes de milho, coco e mandioca. E para dar sorte e esquentar a noite mais fria da época acender fogueira na porta de casa. Ah! E soltar fogos e balões. Sem dúvidas, um negócio bom demais e que dura trinta dias. Melhor, aliás, do que carnaval que só dura três dias.
Como sempre, reservo os dias centrais de festejos correndo para o interior, onde a coisa se comemora de modo raiz. Contudo, fiel ao meu óbvio viés de pesquisador social e politico, fica impossível não observar o que se processa social e economicamente na região. É formidável observar, no meio desses festejos, como a vocação promotora do turismo da gente interiorana de Pernambuco se manifesta e resultam numa ocasião perfeita para a expansão da denominada economia criativa. O chamado cidadão matuto (muitos reagem ao termo) não perde tempo. A rigor, só não trabalha quem não quer mesmo. Jovens e idosos, homens e mulheres se viram como podem e com o que se ofereça oportuno.
No trajeto rodoviário, por exemplo, entre o Recife e Caruaru – aonde os forrozeiros se encontram em maior número – o trânsito se intensifica e, nesta temporada, houve casos de pessoas que levaram seis horas na BR-232, num percurso que normalmente toma apenas hora e meia. Nem preciso dizer que esse engarrafamento sugeriu, aos mais atentos, investir num comercio ambulante à beira da estrada vendendo milho assado e cozido, pipoca, cocada, pamonha e manuê (doce a base de mandioca e coco, envolto em folha de bananeira e assado na brasa), além de cafezinho, água mineral e refrigerante. Pela elasticidade de tempo termina gerando bons trocados ao “comerciante” da hora. Mas, certamente que essas atividades são marginais e mínimas diante das fabulosas somas de investimentos das prefeituras e iniciativas privadas interioranas com vistas à atração de visitantes à cata dos folguedos da época. Somas são postas num jogo rico de oportunidades, que, em contrapartida, demandam mão-de-obra temporária e que não faltam na maioria das localidades. Em suma, o dinheiro circula e realça os princípios básicos do sistema econômico. A Empresa Pernambucana de Turismo – EMPETUR estima que houve uma movimentação de 1,2 Milhão de pessoas circulando gerando uma renda de, algo em torno, dos R$ 500 Milhões na economia interiorana. O Governo do Estado investiu R$ 22 Milhões para garantir a contratação de artistas e a segurança publica. Caruaru (Foto abaixo), Gravatá, Bezerros, Arcoverde e Petrolina foram municípios mais aquinhoados com as verbas azul e branco.
Contudo, como há sempre um porém – que não deixo escapar – é de se lamentar que os promotores de eventos, nessas cidades tão bem apoiadas financeiramente, tenham marginalizado os artistas da terra e aberto espaços elásticos para valores de fora, sobretudo os cantores sertanejos, deixando os autênticos forrozeiros fora das grades de programação. As justificativas são pobres de argumentos. Revoltante constatar que enquanto os forasteiros são pagos regiamente, os poucos locais, quando aproveitados, sofrem amargamente pelos baixos cachês que são contratados e normalmente pagos à base de verbas minguadas e, muitas vezes, de restos a pagar. E o público termina dançando o forró que encontra e nem sabe desses senões. Viva São João! Viva São Pedro! E Santo Antônio, também. Já ia esquecendo.
NOTA: Fotos ilustrações obtidas no Google Imagens
quarta-feira, 22 de junho de 2022
QUEBRANDO O JEJUM
Após dois anos de jejum, por conta da Pandemia, o interior nordestino está acendendo fogueiras e rendendo homenagens aos santos juninos Antônio, João e Pedro. Aqui em Pernambuco o movimento é grande e por coincidir com o clima de pré-campanhas politicas os festejos se intensificam e o povão se esbalda além das medidas. Ocorre que essa “mistureba” de retorno aos folguedos cruzado com a componente politica termina gerando um incrementado caldo, a meu ver, anticultural como nunca visto pelas nossas bandas.
Já faz algum tempo que observo a marginalização dos genuínos ritmos populares, originados nas raízes culturais locais. A sanfona, a zabumba e o triangulo vêm sendo esquecidos pelos conjuntos e arranjadores musicais contratados pelos organizadores dos festejos, neste caso, quase sempre, ligados às autoridades municipais. O forró autêntico, chamado pé de serra, vem se tornando coisa do passado e muito mal é lembrado nas grandes festas de locais como Caruaru (PE) e Campina Grande (PB). Não por falta de artistas defensores do ritmo, mas, por interesses outros, como os de “lavagem de dinheiro” e agrados à galera jovem. São estes que terminam por exigir valores alienígenas que, sequer domina o menor compasso emitido pelo tradicional trio de ritmistas, prestigiados no passado e comandantes dos arrasta-pés, no chão de terra-batida, até o acabar do gás do candeeiro e o dia raiar. Tudo bem... Hoje a luz é elétrica, o som pode ser propagado até o mais distante espectador e a noite se prolonga mais do que antes. Contudo, para uma questão não tem resposta: precisava esquecer as músicas de Gonzaga? As de Dominguinhos? E aplaudir as dos valores mais atuais e vivos? A situação é tão critica que esses vivos sequer são convidados a contribuir com a animação dessa retomada. Ao invés disso, os convidados têm sido “outros” que não trazem relação com a cultura local e que terminam impondo seus ritmos e suas letras musicais duvidosas a uma galera – termo modernoso para denominar a jovem guarda – crentes de que se trata da mais genuína forma de cultura popular.
Por outro lado e por oportuno, observo que seguindo essa onda de “repaginação” da cultura junina ocorreu, no passado recente, um processo radical de mudança nas danças e indumentárias das nossas tradicionais quadrilhas juninas. Nossa tradicional dança matuta se transformou num festival de danças modernas, nada relacionadas com o que vivenciamos no passado. Coreógrafos especializados, figurinistas renomados são mobilizados. Deu samba! Sim, parece mais uma ala de escola de samba, em desfile pelo carnaval. O assunto é polêmico e, correndo o risco de ser mal interpretado, considero que cometeram um equivoco irremediável. Nunca é demais para registrar que a quadrilha junina foi trazida pelos colonizadores portugueses, herdeiros das tradições inglesas e francesas. Nas suas origens a dança da quadrilha era a forma de comemorar o fim de uma colheita. Os europeus eram (e são) sempre gratos por usufruir dos frutos da terra. Uma vez por aqui, as coisas seguiram do mesmo modo. A colheita do milho, no mês de junho, a produção das iguarias com os grãos dourados e a alegria da fartura reinante induziam os agricultores a festejar. E a forma de agradecer era se reunir para dançar a quadrilha. Tudo muito romântico e salutar. As roupas e as danças seguiam moldes culturais de raízes profundas. As calças remendadas dos cavalheiros e os vestidos de babados, com aventais remetiam aos hábitos dos campos de colheita. Tudo muito brejeiro e cultural. Essa chamada repaginação em voga apagou o que de histórico foi desenhado e executado por nossos ancestrais.
Nossa “galera” jamais saberá o significado histórico das nossas festas juninas. Vão crescer e transmitir para frente algo novo e sem amarração logica ou plausível. Lamento que meus filhos e netos não tenham tido as chances que eu tive. Ficarão crendo que guitarras estridentes, “bate-estacas” e percussões de arrebentar quarteirões, além de vozes estranhas são coisas normais. Essa forma de quebrar jejum é lastimável.
sexta-feira, 9 de junho de 2017
Salvemos o Forró
Vejam vocês,
caros leitores e leitoras, como as coisas “evoluem” no campo da cultura
regional. Na época do carnaval venho sempre criticando a inclusão de cantores
sulistas, interpretes de musicas sem qualquer relação com os ritmos do carnaval
pernambucano, na grade de atrações principais para animar nossos festejos. Tudo
em detrimento dos artistas locais que entram de maneira marginal na programação
oficial e com aviltados cachês. Os convidados de fora são privilegiados com
cachês polpudos e recebidos com honras e salamaleques comuns com grandes
estrelas do show business. Uma
humilhação sem tamanho para os que sabem dos valores da cultura local.
Agora, por
ocasião dos festejos juninos, surge uma nova investida contra a prata da casa regional,
ao se constatar que, nas monumentais programações das festas de Caruaru (PE) e
Campina Grande (PB), as grandes atrações são os chamados cantores sertanejos do
Centro-Sul, em flagrante ofensa aos cantores regionais, discípulos de Gonzagão
e Dominguinhos. Há uma tremenda diferença entre os ritmos nordestinos e aqueles
do Festival de Barretos (SP), berço dos tais sertanejos, onde, aliás, os
cantores nordestinos (como Elba e Dominguinhos) são impedidos de se apresentar para
não ofuscar o brilho dos tais sertanejos. E certamente o fariam. Pensem numa
Elba incendiando aquela arena de touros.
![]() |
| Elba Ramalho |
![]() |
| Mestre Dominguinhos |
Ora, meu
Deus, onde vamos parar? Por que tanta insensibilidade cultural? Por que tanta
irresponsabilidade desses promotores de eventos e governantes locais? Todos
muito cínicos em defender suas programações insanas. Os safadões, luans, além das
inúmeras duplas sertanejas são as atrações deste ano nos grandes eventos
regionais. São esses que já fazem as cabeças dos nossos jovens. Jovens
nordestinos que nos anos recentes já consideram o frevo e o maracatu ritmos
insuportáveis e logo, logo vão abominar o forró. Pobres coitados, não saberão
jamais o quanto é gostoso garrar de
uma menina e se arrastar num balancê de esfrega-esfrega
sensual de corpos suados e se esbaldar ao som da sanfona, triângulo e zabumba,
de um forró pé de serra. Tudo, obviamente, com um desfilar de vozes genuínas e
cheias de poesia. Ao invés disso, preferem beber (bebe-se muito, hoje em dia) e
assistir de pé as apresentações desses intrusos bem pagos. Ninguém dança
agarradinho e, muito mal, balança o esqueleto. Coisa mais besta! Dançar uma
quadrilha é coisa démodé e sem qualquer
motivação. As quadrilhas atuais viraram outra estupidez, porquanto estão mais
para desfile alegórico do que a dança inocente, brejeira e romântica dos anos
60 e 70.
Não, não sou
contra as mudanças e as inovações. Mas, tenha dó! No caso da Cultura é preciso
ter cuidado. Uma coisa é evoluir, a outra é deletar
(este termo é neologismo e sinal de modernismo!) o que represente valores culturais.
Países da
Europa e da Ásia são mestres da modernidade, mas, preservam cuidadosamente suas raízes culturais e valorizam o repassar
de geração a geração. No Japão, visitando uma indústria de Tecnologia da
Informação, em Kyoto, fiquei surpreso ao me exibirem o layout de circulação dos micros-filamentos de um circuito de minúsculo
chip (do tipo usado na telefonia celular) que reproduzia uma tapeçaria milenar
(muito antes de Cristo) japonesa, cujo original está exposto no Museu Ueno
(Tóquio). Apenas como exemplo.
| Savinho do Acordeon |
Tenho
acompanhado os protestos dos cantores populares regionais contra essas
promoções de forasteiros nos nossos festejos. A cantora Elba Ramalho já colocou
a boca no trombone dos protestos e se ressente da sua exclusão nos festejos da
sua cidade natal, Campina Grande. Aqui em Pernambuco, um dois maiores
defensores do forró e difusor das músicas de Gonzaga e Dominguinhos, Savinho do
Acordeón, (foto acima), não deixa por menos e com o
slogan: “Festa Junina é com forró e não com Sertanejo”, vem denunciando essa dependência
cultural dos desavisados no poder. Danado é que os políticos de plantão fazem
disso, também, uma maneira de cativar os eleitores.
Salvemos o
Forró nordestino, enquanto é tempo.
NOTA: Fotos obtidas no Google Imagens e arquivo particular de Savinho do Acordeón.
domingo, 28 de junho de 2015
Defendendo as Tradições Juninas
Gosto sempre
deste mês de Junho, no Nordeste, porque nele geralmente fazemos uma pausa na
correria do dia-a-dia para curtir uma festinha caipira. Gosto que me enrosco. Come-se
milho, canjica e pamonha, garrasecamuié
e arrastarospé num forrozinho
aprumado. Neste ano então a coisa veio em boa hora diante da crise que nos
perturba.
Independente
da crise, veja só como o tempo está passando rápido. Junho está acabando e com ele metade do ano. Ano difícil. Nada
evoluiu e as preocupações só se multiplicam. Por mais alienado que seja o
cidadão, com relação às futricas políticas e econômicas do país, não tem sido
fácil relaxar. O “caldeirão da república” está em constante ebulição. A pressão
é grande, até para quem vive como observador, como é meu caso. Além de vitima,
é claro! Por isso mesmo que a paradinha do São João veio em boa hora. Cada um
para quando lhe é possível. Para mim, foi. Já nossos parlamentares tiveram que
ficar em Brasília para curtir o bafafá da Corte de D. Dilma. Afinal, alguém tem
que trabalhar!
Como quase
todo ano tomei o rumo do poente e fui bater onde as plagas da família, banda
dos Mendonça, em Fazenda Nova (*), onde a noite de São João é festejada à moda
interiorana e leva a gente, que tem raízes familiares ali fincadas, viver
momentos de congraçamento familiar e de reminiscências refrescantes.
Festejos
familiares à parte, diga-se que excelentes e caprichados, impossível não notar
as dificuldades que se tem atualmente para manter a tradição. Há sempre uma invenção
de modernidade aqui ou acolá, que termina desvirtuando o que havia de pureza e
brejeirice do passado não muito distante. Fogueiras são queimadas, é verdade. Até
porque os mais velhos mantêm a tradição, mas, as antigas quadrilhas ficaram
descaracterizadas e cheias de novidades que não combinam com a tradição e
história da festa. As “matutas” e os “matutos” de hoje em dia dançam uma
quadrilha modernosa,
vestem fantasias temáticas (vide foto acima) e encenam alegorias extravagantes.
É quase um carnaval. Inteiramente diferente do que se faziam no passado. Os “alavantu”
e “anariê” de antigamente passam longe dos salões e pátios de festejos. Tenho
saudades de ver crianças queimando inocentes estrelinhas, riscando caraduras
coloridas, soltando um fumarento chuvisco de prata ou jogando diabinhos acesos
nos pés das menininhas assustadas. Alguns destes, fazendo jus à própria
denominação, subiam pelas perninhas saltitantes e iam bater nas calcinhas
cheias de babados. Um alvoroço geral. Muito ingênuo, apesar das perninhas e
calcinhas como objetivos da brincadeira dos meninos assanhados. Eu fiz isso
demais. Ou então, lembro que era divertido queimar mosquitão ou busca-pé... Não
havia coisa mais divertida do que perguntar a um amigo se iria “soltar rodinha
no pau de vassoura” na noite de São João. E estourar um peido-de-véia homenageando a vovó ou a uma tia idosa? Armaria! Era uma confusão quando
declarada a homenagem. Bom demais! Ah! Meus tempos! Quem tem mais de cinquenta
anos sabe do que estou falando. Azar de quem achar que sou saudosista... Os
meninos de hoje, nem se abalam. Ninguém chora ou bate com o pé, por um pacote de
fogos. Nem corre prá ver acender a fogueira! Ao invés disso, ficam enfurnados
dentro de casa, incomodados com a fumaça que se espalha no ar e agarrados com
um celular ou um tablet, jogando
vídeo-game. Desconfio que dentro de trinta anos essa coisa de festa junina vai
ser história do passado. A sociedade muda e muda com rapidez. Os costumes e
tradições são arquivados sem pena e sem deixar saudade. Precisamos defender a
cultura dos folguedos juninos, antes que passem a borracha.
Ali, um
pouco antes de Fazenda Nova, em Caruaru, onde se propala que é feito o maior
São João do mundo, a coisa está sendo muito criticada devido a descaracterização
dos festejos. Os mais velhos afirmam que o que era bem típico deu lugar a um
megaevento, que está mais para carnaval do que qualquer outra coisa, com forte apelo
comercial e distante do que se realizava há vinte ou trinta anos. As atrações
já não são mais os valores artísticos locais e, sim, os nomes de sucesso no
cenário nacional, que de modo geral ignoram os ritmos e músicas regionais. Tudo
para atrair público e render mais. Muito mais!
Está se
formando, desse modo, uma geração que vai seguir rumo ao futuro sem noção do que significa
uma autentica manifestação junina. Santo Antonio, São João e São Pedro serão
apenas imagens na igreja da matriz da cidade.
Fiéis às
tradições, ainda conseguimos realizar, em família, um autêntico pé-de-serra, contando com um trio composto
de sanfona, zabumba e triângulo. (Foto acima). Rolou Luiz Gonzaga, Dominguinhos e Zé Dantas a
noite inteira. Para forrar o istambo comemos
sarapatel, cabidela de galinha e guisado de penosa, acompanhado de farinha da
terra e xerém salgado, regados com bons vinhos. E ruins também, porque faz
parte. E não deixamos de comer canjica, pamonha e milho cozido. Bom danado. Deu
até pra esquecer a crise! Viva São João!
(*) Distrito do Município de Brejo da Madre de Deus, situado
a 180km. Distante do Recife.
Nota: Fotos obtidas no Google Imagens, exceto a do trio pé-serra, da autoria do Blogueiro.
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