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domingo, 2 de agosto de 2026
Tropeços Diplomáticos
Por razões profissionais tive boas oportunidades de vivenciar e interagir com o meio diplomático brasileiro, bem de outros países com os quais o Brasil se relaciona. Foram experiências formidáveis e enriquecedoras na construção da minha carreira como Economista, tanto no serviço publico, como no meio empresarial, onde, por bom tempo, atuei como Consultor. No Serviço Público contribuí, no fim de carreira, como Coordenador de Cooperação Internacional da SUDENE e, após isto, prestando consultorias no setor privado, até bem recente. Certamente que estes antecedentes despertaram-me grande interesse pelos recentes tropeços diplomáticos envolvendo o Brasil com a Argentina e o Paraguai. Apreensivo, conferi que foram situações vexatórias e desafiadoras para os tempos que vivemos. Considerei como deplorável ver o presidente argentino, Javier Milei, sem cerimonia e respeito, desferir tantas “indelicadezas politicas” ao Presidente brasileiro e a um magistrado da Suprema Corte do Brasil. Por mais razões que possam ser narradas, nunca se espera de um mandatário estrangeiro - em visita ao país vizinho e amigo – dar aquele quase histérico de pronunciamento. Por outro lado e como se isto fosse pouco, nosso Presidente também teve seu momento de tropeço ao se referir de modo sem fundamento histórico ao vizinho Paraguai, num dos seus discursos semanais. Ambos os casos apontam para ausência total de um alinhamento politico-diplomático nas assessorias dos dois presidentes. Vá lá que eles não se liguem com acurados cuidados e se confiem nos seus improvisos, mas, a coisa não sai barata. Presidentes de Nações devem ter mínimos conhecimentos históricos do país que comanda e sempre respeitá-los. Aliás, vale refletir que é justamente nesses momentos que estadistas se distinguem de meros administradores de crises geradas por polarizações políticas. Enquanto estes respondem pelo presente, aqueles procuram preservar a Historia e o futuro. Esta tensão diplomática entre Brasil e Paraguai despertou, rapidamente, a atenção da opinião pública dos dois países. As manchetes destacaram declarações, protestos, consultas de embaixadores e manifestações oficiais. Ora, meu Deus, é natural que episódios dessa natureza provoquem inquietação, sobretudo envolvendo dois países vizinhos, ligados por uma extensa fronteira e por históricos interesses político-econômicos comuns. Brasil e Paraguai possuem uma convivência marcada por episódios dramáticos e, ao mesmo tempo, por extraordinários exemplos de cooperação. A Guerra da Tríplice Aliança, travada no século XIX, deixou cicatrizes profundas que jamais desapareceram completamente da memória coletiva dos paraguaios. Seria ingenuidade imaginar que um conflito daquela dimensão pudesse ser apagado pelo simples passar do tempo. A propósito disso, recordo de um episódio que vivi, num Seminário sobre (Sub)Desenvolvimento Regional, em Tóquio (Japão), quando , de certo modo. fui verbalmente agredido pelo representante paraguaio, criticando a presença de um representante do Brasil, país visto por ele como explorador e suficientemente desenvolvido. Ao mesmo tempo, contudo, seria igualmente injusto ignorar que, ao longo das últimas décadas, os dois países construíram uma relação baseada na integração econômica, na cooperação energética, Itaipu é um marco (Foto a seguir) dessa integração, no comércio, no combate aos crimes transnacionais e no fortalecimento do Mercosul.
A própria usina hidrelétrica de Itaipu simboliza essa realidade. Onde antes houve guerra, ergueu-se uma das maiores demonstrações de que antigos adversários podem substituir conflitos em desenvolvimento compartilhado. A energia produzida por Itaipu ilumina cidades, movimenta indústrias e demonstra que a cooperação costuma produzir resultados muito mais duradouros do que a confrontação. É inegável que Brasil e Paraguai possuem inúmeras razões para manter um relacionamento sólido. O comércio bilateral movimenta bilhões de dólares; milhares de famílias vivem nas regiões de fronteira; empresas, trabalhadores e estudantes transitam diariamente entre os dois países pela famosa Ponte da Amizade.
Creio que esses vínculos são mais fortes do que qualquer crise passageira ou tropeço de qualquer Chefe de Estado de plantão. Episódios como o recente devem servir menos para alimentar paixões e mais para recordar o verdadeiro sentido que é sustentado por um bom Corpo Diplomático. A Diplomacia existe justamente para administrar divergências antes que elas se transformem em conflitos maiores. A ela cabe, de modo atento, mostrar que as crises passam, a geografia permanece e a História continua. NOTA: Fotos ilustrativas obtidas no Google Imagens.
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