sábado, 22 de agosto de 2026
Salvemos a Imperatriz
Não é comum que eu escreva sobre questões tão específicas da vida urbana brasileira, embora seja bem interessante. Minha pauta, como sabem os leitores deste Blog, costuma transitar por temas mais macros, sobretudo aqueles relacionados à política, à sociedade e aos caminhos que estamos construindo para o nosso país. Mas, desta vez, abri uma exceção ao ser convidado por amigos para participar de uma manifestação empresarial em defesa da recuperação da Rua da Imperatriz, no centro do Recife. O convite me fez refletir. E aceitei porque acredito que o abandono daquela importante artéria da nossa cidade não é apenas um problema dos comerciantes que ainda resistem por ali. É uma questão que diz respeito a todos nós recifenses. Quem, como eu, conheceu a Rua da Imperatriz em outros tempos certamente guarda alguma lembrança. Durante décadas, ela foi uma referência do comércio recifense, um lugar de passagem, de compras, de encontros e de convivência. Tinha movimento, lojas, pessoas e vida. Hoje, infelizmente, a realidade é outra. A degradação física, o enfraquecimento do comércio, a insegurança e a redução da circulação de pessoas criaram um ambiente que pouco lembra a rua que tantos recifenses conheceram. E quando uma área tradicional de uma cidade chega a esse estágio, não estamos diante apenas de uma dificuldade econômica. Estamos diante de uma perda urbana. Uma rua não é somente um conjunto de imóveis, calçadas e estabelecimentos comerciais. Ruas também guardam histórias. São testemunhas silenciosas das transformações de uma cidade. Por elas passaram gerações de pessoas, comerciantes, trabalhadores, estudantes e famílias. Algumas fazem parte da própria memória afetiva de uma população. Por isso, recuperar a Rua da Imperatriz deveria ser muito mais do que reabrir lojas ou aumentar o faturamento do comércio local. É preciso devolver-lhe vida. E devolver vida a uma área degradada não é tarefa simples, nem responsabilidade exclusiva de um único segmento. O poder público tem, evidentemente, um papel fundamental. Cabe-lhe garantir segurança, limpeza, iluminação, conservação dos espaços públicos, mobilidade e condições mínimas para que moradores, trabalhadores e consumidores possam voltar a frequentar aquela região. Mas também não podemos imaginar que o poder público, sozinho, resolverá tudo. Os empresários e comerciantes precisam participar desse processo. Proprietários de imóveis também têm responsabilidades. A sociedade, por sua vez, precisa voltar a olhar para o centro da cidade não como uma região a ser evitada, mas como um espaço que merece ser recuperado e ocupado. Há, portanto, uma palavra que considero essencial nesse debate: parceria. Precisamos superar a velha lógica de que, diante de um problema urbano, cada lado procura imediatamente apontar o culpado. O empresário culpa o poder público. O poder público responsabiliza o comércio. O cidadão reclama de todos. E, enquanto isso, a degradação avança. Não é disso que o Recife precisa. Precisamos de um projeto de recuperação do centro que tenha continuidade, planejamento e participação. Um projeto que não se limite a uma intervenção pontual ou a uma ação de ocasião. A Rua da Imperatriz poderia ser, inclusive, um bom ponto de partida. Sei que estudos vêm sendo realizados para avaliar as possibilidades de revitalização daquela área. Considero importante que a Universidade Federal de Pernambuco/SUDENE e outras instituições participem desse esforço. Uma intervenção urbana dessa natureza não pode ser feita sem conhecimento técnico, planejamento e visão de futuro. Mas há algo que também precisa ser levado em consideração: a experiência de quem vive diariamente a realidade da rua. Proprietários de imóveis e comerciantes defendem, entre outras medidas, a possibilidade de reabrir a Rua da Imperatriz ao tráfego de veículos leves. Representante da Prefeitura do Recife, presente no encontro em tela, assim prometeu. Muitos acreditam que a circulação de automóveis poderia facilitar o acesso dos consumidores, aumentar o movimento e contribuir para devolver vitalidade ao comércio. Confesso que não tenho conhecimento técnico para afirmar que essa seja a solução. Mas tenho uma convicção: ela não pode ser simplesmente descartada. Se aqueles que trabalham e investem na rua há anos percebem uma relação entre a atual configuração da via (um grande calçadão) e o esvaziamento do comércio, essa percepção precisa fazer parte da discussão. Ao mesmo tempo, não me parece correto transformar essa questão em uma disputa entre automóveis e pedestres. O objetivo não deve ser escolher um lado. O objetivo deve ser descobrir qual modelo de circulação e ocupação pode efetivamente devolver vida à Rua da Imperatriz. A recuperação da Rua da Imperatriz poderia integrar uma iniciativa mais ampla de revitalização do velho centro do Recife, estimulando a ocupação dos imóveis, a recuperação das fachadas, a instalação de novos negócios, a valorização do patrimônio histórico e, principalmente, a presença permanente das pessoas. Porque cidade viva é cidade ocupada. É preciso segurança para que haja circulação. É preciso circulação para que haja comércio. É preciso comércio para gerar empregos e atrair pessoas. E é preciso preservar a história para que a modernização não transforme o centro em um lugar sem identidade. É justamente aí que vejo a importância da mobilização empresarial à qual fui convidado. Ela pode representar algo maior do que uma reivindicação de comerciantes. Pode ser um alerta para toda a cidade. O Recife não pode se acostumar com a decadência de seus espaços tradicionais. Não podemos considerar natural que ruas que já foram importantes centros de convivência e de atividade econômica sejam progressivamente abandonadas. Não podemos assistir passivamente à deterioração de imóveis históricos, à perda de atividades comerciais e ao afastamento das pessoas. Vide foto a seguir.
Uma cidade que abandona seu centro corre o risco de abandonar também parte da sua própria memória. E não estou defendendo um retorno ao passado. O Recife não precisa voltar a ser a cidade de décadas atrás. Precisa, isto sim, construir um futuro melhor aproveitando aquilo que o passado lhe deixou. Talvez seja esse o maior desafio que temos diante da Rua da Imperatriz. Não se trata apenas de recuperar uma rua. Trata-se de recuperar a possibilidade de que aquele espaço volte a ser um lugar de encontro, de trabalho, de comércio e de convivência. Um lugar onde o recifense possa caminhar, comprar, conversar, trabalhar e sentir que aquela rua pertence novamente à cidade. A Rua da Imperatriz é apenas uma parte de um problema muito maior. Muitas outras artérias estão largadas ao abandono, mas pode também ser parte de uma solução. Se conseguirmos unir poder público, iniciativa privada, universidade e sociedade em torno de um objetivo comum, talvez possamos começar a mudar essa história. Não devemos esperar que a Rua da Imperatriz desapareça para depois lamentar a perda. Ainda há tempo de recuperá-la. E, ao fazê-lo, estaremos recuperando muito mais do que o comércio de uma rua. Estaremos recuperando um pedaço da memória, da dignidade e da própria alma do Recife. Foto do Blogueiro.
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